Em Sangue de Coca-Cola (1980), o mineiro Roberto Drummond (1933-2002) apresenta um romance altamente experimental, com flashes sobre fatos e personagens que povoaram o golpe militar de 1964. A obra utiliza a enumeração caótica, a ruptura temporal e espacial, a cultura pop, com referências aos ícones da indústria de massa, e enumera eventos de tortura e morte perpetrados pelo período de exceção da ditadura, com fechamento do congresso e utilização de atos institucionais. Os mais importantes foram o AI-1 e o AI-5. A obra fixa a noite de 31 de março para 1. de abril de 1964, na visão de um matador escondido num apartamento, que bebeu LSD misturado com Coca-Cola. Entre paródia do capitalismo e loucura, provocada pelo desregramento das leis e da ordem social, o autor emprega esses símbolos da globalização ao lado de imagens de animais. A borboleta verde, o urso, o ouriço, o cavalo que fala, nem sempre são muito compreensíveis. Mas, na visão psicodélica da obra, a ideia de uma comédia de erros e de um mundo sem sentido (como o de Macbeth), balbuciado por um louco, é a opção do escritor de Hilda Furacão (1991) e do premiado (Jabuti de 1975) A morte de D. J. em Paris. Nesse sentido, ele se contrapõe à literatura-depoimento, de denúncia e memorialista dos anos de chumbo, escritas por Fernando Gabeira, em O que é isso, companheiro?, Renato Tapajoz, em Em câmera lenta, Heloneida Studart, em O pardal é um pássaro azul, Os Carbonários, de Alfredo Syrkis, o importante A Festa, de Ivan Angelo, que também se passa entre o dia 31 de março e 1. de abril e Zero, de Ignacio de Loyola Brandão, que foca na burocracia, outra arma da ditadura contra a liberdade do cidadão. Participam do debate Luiza Lobo (coordenadora e criadora do projeto), Alcmeno Bastos (coordenador), Carmem Teresa Elias, Dea Mesquita, Heloísa Barbosa, Luís Filipe Ribeiro e Sonia Zyngier.
A Religiosa (1760, pub. póstumo 1796), de Denis Diderot (1713-1784), foi o tema deste Café Literário Digital do Pen Clube do Brasil, no dia 2 de julho de 2020. Foram apontados aspectos importantes do autor, uma das principais figuras da Ilustração, com a direção da Enciclopédia das artes, ciências e ofícios, e obras como A Religiosa, com seu caráter anticlerical. Neste sentido, o vocabulário da obra já indica a posição do autor, que lança mão do romance de tese e também do romance epistolar, da preocupação com a verossimilhança e os jogos de sociedade da nobreza, recursos usuais na literatura do século XVIII, também presentes no livro Relações perigosas, de Choderlos de Laclos (1782), por exemplo. Participaram da reunião: Luiza Lobo (coordenadora e autora do projeto), Celi Luz, Heloísa Barbosa, Ligia Vassallo e Sonia Zyngier.
O romance Os cus de Judas (1979), de António Lobo Antunes, é dissecado numa discussão intensa pelos participantes Luiza Lobo (autora do projeto Café Literário e Coordenadora), Alcmeno Bastos (coordenador), Heloísa Barbosa, Luís Filipe Ribeiro e Sonia Zyngier. O livro se reporta à guerra colonial de Portugal para manter Angola, de 15 de março de 1961 até a Revolução dos cravos, em 25 de abril de 1974. É escrito em primeira pessoa, rememorando o ano de 1971, quando o autor trabalhou no país como médico. Foram acentuados os aspectos barroquistas, personalistas e por vezes pleonásticos das imagens do livro, em que se sobrepõe a figura do personagem-narrador, prisioneiro angustiado de sua memória à própria barbárie da guerra. O vídeo foi dividido em duas partes, por ter ocorrido um problema técnico na primeira parte, sendo que o conteúdo não foi prejudicado.
GRAVADO EM 2020 06 01
Este podcast mostra uma discussão sobre o livro Orlando, de Virginia Woolf, no Café Literário Digital do Pen Clube do Brasil, no dia 1. de junho de 2020. Participaram Luiza Lobo (coord. do projeto e do Café Digital), Alcmeno Bastos (coord.), Carmem Teresa Elias, Heloísa Barbosa, Karla Dallale, Luís Filipe Ribeiro e Sonia Zyngier. Após uma exposição por cada um, abriu-se uma discussão livre, versando sobre a biografia da autora, sua relação com Victoria Sackville-West, que foi o tema dessa "falsa biografia", e sobre a vasta gama de obras literárias citadas pela autora relativamente aos 300 anos da vida da personagem Orlando. Esta foi analisada na perspectiva do conceito de andrógino, que Virginia Woolf foi buscar no poeta Samuel Taylor Coleridge, e que esteve muito presente no neoplatonismo dos poetas românticos ingleses.
Palavras-chaves: Orlando - Virginia Woolf - Victoria Sackville West - Café Literário