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Padre Pedro Willemsens - Meditações
Padre Pedro Willemsens
283 episodes
5 days ago
Meditações do padre Pedro Willemsens, do CEAC (Brasília - DF), sobre diversos temas (doutrina católica, temáticas da fé, virtudes, aspectos da vida humana, dentre outros).
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Christianity
Religion & Spirituality
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Meditações do padre Pedro Willemsens, do CEAC (Brasília - DF), sobre diversos temas (doutrina católica, temáticas da fé, virtudes, aspectos da vida humana, dentre outros).
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Religion & Spirituality
Episodes (20/283)
Padre Pedro Willemsens - Meditações
Ano novo: "o amor perfeito lança fora o medo".

No início de um novo ano, esta meditação parte da afirmação de São João — “o amor perfeito lança fora o medo” (1Jo 4,18) — para refletir sobre a vida como uma aventura que exige confiança, risco e esperança. Toda vocação autêntica implica um “pulo”: sair da segurança, atravessar o vão, aceitar a possibilidade do erro e do ridículo, para viver de verdade.

Inspirando-se em histórias concretas do amadurecimento humano (como as narradas em Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt), a meditação mostra como enfrentar o medo — especialmente o medo de errar — é condição para crescer. A fé cristã não elimina o risco, mas o ilumina com esperança: não buscamos respostas apenas no “por quê”, mas no “para quê”, à luz da promessa de Deus.

O livro de Livro de Jó ajuda a compreender o sofrimento não como castigo sem sentido, mas como caminho que só se revela plenamente no futuro. Vivemos in spe salvi: salvos na esperança, certos de que “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

A meditação conclui confiando o ano novo a Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa Mãe. A liturgia nos recorda que a vida começa como dom antes de ser tarefa. Começar o ano com Maria é aprender a viver com confiança filial, esperança sobrenatural e coragem para amar — mesmo quando isso significa lançar fora o medo e dar o salto.


_________________


📚 Referências

  • 1 Jo 4, 18.
  • Jonathan Haidt, Geração Ansiosa.
  • Artigo citado sobre a "arte clown": https://opusdei.org/pt-br/article/a-p...
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5 days ago
31 minutes 39 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
O Natal e o poder conquistador da mansidão

Há histórias em que a força não vence pela espada, mas pela entrega. Histórias em que alguém poderia impor, dominar, esmagar… e escolhe outro caminho. Um caminho mais lento. Mais silencioso. Mais verdadeiro.

Uma princesa governa pelo medo. Cabeças rolam. Enigmas se transformam em sentenças de morte. Tudo está organizado segundo a lógica do poder. Quem manda vence. Quem falha desaparece. Até que surge alguém disposto a vencer sem ferir. Ele poderia exigir. Poderia cobrar. Poderia triunfar pela lei. Mas decide se expor. Revela o próprio nome. Coloca-se nas mãos daquela que poderia destruí-lo. E, nesse gesto desarmado, algo se rompe por dentro dela. Pela primeira vez, o amor entra onde antes só havia controle.

Essa cena antiga, cantada em uma ópera, ecoa algo profundamente cristão. Deus nunca conquistou o mundo pelo medo. Nunca entrou na história pela violência. Quando decidiu vir, escolheu a forma mais frágil possível. Um bebê. Sem exércitos. Sem discursos. Sem proteção. Apenas presença.

Belém não foi acidente. Foi método. O Filho de Deus nasce fora dos centros de poder. Não escolhe Roma. Não escolhe Jerusalém imperial. Escolhe o silêncio. Escolhe a periferia. Escolhe depender. A força que salva não vem do alto para baixo, mas de dentro para fora. O coração se rende quando percebe que é amado, não quando é ameaçado.

Essa lógica atravessa toda a vida cristã. Quem vive sempre armado, sempre defensivo, sempre pronto para reagir, acaba exausto. A agressividade muitas vezes não nasce da força, mas do medo. Jesus, ao contrário, sabe exatamente de onde vem e para onde vai. Por isso pode se ajoelhar. Pode lavar pés. Pode amar até quem vai traí-lo. A mansidão que Ele vive não é fraqueza. É domínio interior. É força sob controle.

Existe um momento em que a vida ensina isso com delicadeza. Pais que envelhecem. Pessoas que já poderiam brigar, responder, exigir… e escolhem não fazê-lo. Não por covardia, mas por sabedoria. Descobrem que nem toda batalha merece ser travada. Que a paz vale mais do que ter razão. Que o amor conquista onde a dureza só afasta.

O Natal nos coloca diante dessa escolha. Continuar vivendo na lógica da força, do medo, da defesa constante… ou permitir que o despojamento de Deus nos transforme por dentro. O Menino no presépio não nos pede heroísmos espetaculares. Pede algo mais difícil. Abrir mão. Confiar. Tornar-se manso sem deixar de ser forte.

Bem-aventurados os mansos. Porque não conquistam territórios. Conquistam corações.

_______________________


📚 Referências usadas na meditação:

- Bíblia Sagrada

  • Mateus 5,5
  • Filipenses 2,6–8
  • João 13,1–15

- Ópera Turandot, Giacomo Puccini,Ária Nessun Dorma.

- São Josemaria Escrivá, Entrevistas com Mons Josemaria Escivá, nº 44.

- José Miguel Pero-Sanz Elorz, Isidoro Zorzano.

- Jonathan Haidt, Geração Ansiosa.

- Conto de Tolstoi sobre o rei que se despoja, narrado por Bento XVI: https://www.vatican.va/content/benedi...

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1 week ago
31 minutes 43 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Os três convites do Natal

O Natal não começa com luzes. Começa com um incômodo. Algo que chama por dentro e pede para ser visto. Como Scrooge, que atravessou anos olhando apenas para o próprio dinheiro, muitas vezes também passamos pela vida sem levantar a cabeça. O mundo segue. As datas passam. E o coração vai ficando estreito. Até que algo interrompe o fluxo normal das coisas e nos obriga a olhar de novo.

Há um primeiro movimento essencial. Levantar os olhos. Perceber que Deus não ficou distante. Ele atravessou a história, fez-se pequeno, entrou na nossa pobreza. Um bebê sempre chama a atenção. Não impõe. Não grita. Apenas está ali. E isso muda tudo. O Natal começa quando nos damos conta desse amor que veio antes, que tomou a iniciativa, que nos alcançou sem ser merecido. A vida cristã nasce da gratidão. Só ama de verdade quem primeiro se sabe amado.

Quando essa verdade desce da cabeça para o coração, algo se move por dentro. Não é euforia. É alegria serena. A alegria de Simeão, que segura o Menino nos braços e sente que pode partir em paz. A alegria de Sara, que ri ao perceber que Deus ainda é capaz de surpreender. A alegria que não ignora a dor, mas a atravessa com sentido. Quem se sabe amado não vive mais do mesmo jeito. O coração se expande. O sorriso volta. O peso diminui.

E então vêm as mãos. Porque alegria verdadeira nunca fica parada. Ela pede resposta. O amor recebido pede amor devolvido. É por isso que o Natal se transforma naturalmente em generosidade. Os reis magos caminham longas distâncias para oferecer o que têm de melhor. Scrooge, depois de renascer por dentro, muda concretamente sua maneira de viver. E uma mulher recém-convertida, ao preparar uma ceia de Natal, descobre que o Evangelho pede escolhas reais. Não apenas convidar quem pode retribuir, mas abrir a casa para quem nada pode oferecer além da própria presença.

Esse é o escândalo do Natal. Deus escolheu precisar de mãos humanas. Escolheu bater à porta. Não força entrada. Espera. O Menino de Belém não impõe. Ele se oferece. E isso exige uma resposta livre. Amar não é automático. Amar custa. Mas também liberta.

Existe ainda um convite mais silencioso, quase escondido. O da piedade. Do carinho com Deus. O desejo de se aproximar, de tratar Jesus não apenas como ideia, mas como presença viva. Há algo profundamente verdadeiro nessa intuição. Deus se fez pequeno para nos tornar mais atrevidos no amor. Para quebrar a frieza. Para facilitar o caminho até Ele.

O Natal é isso. Um chamado para nascer do alto. De novo. Não por esforço isolado, mas por abertura. Cristo quer ser formado em nós. E isso acontece quando deixamos Maria nos ensinar a acolher. A guardar. A responder. Ela percebeu antes de todos. E continua nos mostrando como transformar gratidão em alegria, alegria em generosidade, generosidade em entrega.

Talvez o maior risco seja repetir Belém. Casa cheia demais. Coração ocupado demais. Porta fechada demais. O Natal é a batida de Deus no nosso interior. Que não passemos distraídos. Que saibamos abrir. E deixar que Ele nasça.

_____________


📚 Referências citadas:

- Bíblia Sagrada

  • Evangelho de João 3,3
  • 1 João 4,9 e 4,11
  • Lucas 2 e 14
  • Gálatas 4,19

- Charles Dickens, Um Conto de Natal

- Scott Hahn, Filha de Sião

- São Josemaria Escrivá, Caminho e Forja

- Tradição litúrgica do Natal

- Espiritualidade cristã sobre gratidão, alegria e generosidade

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2 weeks ago
35 minutes 3 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
O retorno do rei

Há cadeiras que dizem mais vazias do que cheias. Um trono sem ninguém sentado pode parecer ausência, mas às vezes é promessa. Na tradição antiga da Igreja, existia a imagem de um trono preparado, vazio, esperando o verdadeiro Rei. Não era descuido. Era esperança. Um lugar reservado para Alguém que ainda viria.

O Advento começa assim. Com um espaço deixado livre. Com a recusa silenciosa de ocupar tudo. Com a decisão interior de não preencher cada canto da vida com ruído, pressa e distração. Preparar o caminho do Senhor não é correr. É desocupar. É deixar que Ele encontre onde se sentar.

Imagina os primeiros cristãos reunidos depois da Ascensão. A mesa posta. O pão partilhado. E, ainda assim, a sensação de que faltava alguém. Não na Eucaristia, onde Ele estava inteiro, mas no olhar, na voz, na presença visível. Aquela ausência doía. E justamente por isso os fazia viver acordados, atentos, com o coração voltado para o Céu. Marana tha. Vem, Senhor Jesus.

Esperar não é cruzar os braços. Quem espera de verdade arruma a casa. Endireita o que está torto. Joga fora o que ocupa espaço demais. João Batista entra em cena assim, como quem sacode a poeira da alma. Não para humilhar, mas para acordar. O machado na raiz das árvores não é ameaça vazia. É convite à frutificação. Ainda dá tempo.

Existe um trono na cabeça. O lugar da atenção. Aquilo que ocupa os pensamentos quando ninguém está olhando. Se tudo ali já está tomado por preocupações, excessos e barulho, o Rei passa adiante. O Advento pede silêncio. Palavra de Deus aberta. Tempo real de oração. Um espaço mental que diga sem palavras: aqui Tu és bem-vindo.

Existe também um trono no coração. Um espaço que muitas vezes está cheio demais. Pedras, espinhos, apegos, mágoas antigas, desejos desordenados. Alguns terrenos não recusam a semente. Apenas não têm onde deixá-la crescer. A conversão começa quando algo precisa ser rebaixado e outra coisa precisa ser elevada. Para que Ele encontre um quarto preparado.

E existe o trono das ações. Os braços. O modo como a fé se traduz em gestos concretos. João Batista não pedia que todos vivessem no deserto. Pedia justiça no trabalho, sobriedade, partilha, honestidade. Quem tem duas túnicas reparte. Quem tem poder não oprime. O Rei se esconde no próximo. E é ali que Ele espera ser recebido.

Mas essa vigilância não é nervosa. Não é ansiedade espiritual. Não é medo paralisante. Aqui entra Maria. Se João desperta, Ela sustenta. Se ele exige, Ela consola. Maria ensina a esperar com confiança, não com desespero. A preparar sem perder a paz. A saber que fazemos a nossa parte, mas é Deus quem vem e salva.

Algumas coisas não se apressam. A água do chimarrão só fica no ponto quando ninguém está olhando. O crescimento espiritual também. O Advento é esse tempo em que se trabalha e se espera. Em que se limpa a casa sabendo que o Noivo virá no tempo certo.

No fundo, toda essa espera é amor. A Igreja é apresentada como uma noiva adornada. Não dorme. Escuta. Mantém o coração vigilante. Cor meum vigilat. O meu coração vela.

Maria foi quem melhor preparou esse trono. Não apenas simbolicamente, mas no próprio corpo e na própria vida. Ela não apenas esperou o Rei. Tornou-se o lugar onde Ele se assentou. Onde o Céu tocou a Terra.

Que este Advento encontre em nós um espaço livre. Um trono não ocupado por distrações. Um coração acordado. Uma casa preparada. Porque o Rei vem. E deseja encontrar-nos de pé, atentos, e cheios de esperança.

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📚 Referências citadas

  • Bíblia Sagrada: Isaías 40, Mateus 3, Lucas 21, Marcos 1, Filipenses 3, Cântico dos Cânticos.
  • Explicação de ícone que inclui uma representação da "hetoimasia" e a distribuição dos santos à direita e à esquerda de Cristo:    • Understanding The Last Judgement - Seattle...  
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3 weeks ago
32 minutes 25 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
"Não estou eu aqui, que sou tua mãe?"

Há encontros que mudam o rumo silencioso da vida, como aquela tarde em que Germain, o homem simples de “Minhas Tardes com Margueritte”, escutou da velhinha sábia uma verdade que corta fundo: às vezes a vida promete um amor que não consegue manter. E quando essa promessa falha, o coração humano passa a procurar, para sempre, aqueles braços que diziam: está tudo bem, eu estou aqui.

É fácil entender por que aquelas palavras o atravessaram como flecha. Todo ser humano carrega essa saudade silenciosa de um colo que compreende sem explicar, que acolhe sem exigir, que sustenta sem pedir nada em troca. E talvez seja por isso que a cena mais forte do Calvário não seja apenas o sacrifício, mas aquele instante em que Jesus olha para João e entrega o seu maior tesouro. Eis aí a tua mãe.

A partir daquele momento, o mundo ganhou de novo o que todo filho perdido procura. Mas para entender a profundidade disso é preciso voltar às raízes. Os antigos judeus sabiam que certas dores pedem a intercessão de quem ama como só uma mãe ama. Raquel era essa figura. A mulher que chorava pelos seus filhos exilados. A mãe cujo pranto, dizia a tradição, movia o coração de Deus quando até os grandes patriarcas já tinham desistido.

Maria é a nova Raquel. A mãe que conhece a dor do parto, tanto o indolor de Belém quanto o terrível e silencioso aos pés da cruz. Ali, com o Filho pendurado e o coração rasgado, nasce seu segundo parto. O parto espiritual. O parto que nos deu vida. O parto que fez dela a nossa mãe.

E como uma mãe, Ela vai ao nosso encontro quando tentamos fugir do que dói, como fez com Juan Diego nos caminhos áridos do México. Ele só queria encontrar um padre para o tio moribundo, mas também queria escapar da missão impossível que achava que Maria lhe pedia. E Ela aparece diante dele sem exigir nada, apenas com aquela voz que desfaz o medo mais antigo do coração humano: Não estou eu aqui que sou tua mãe?

Há algo nessa frase que acalma até tempestade interior. É o mesmo tom que cura feridas velhas, que recolhe os pedaços que a vida espalhou, que devolve coragem a quem só queria desaparecer por um instante.

Ser filho de Maria é isso. É voltar a ter um lugar onde a alma descansa. Um colo que não passa. Um olhar que não falha. Uma presença que acompanha até quando tudo parece ruir. Ela guarda seus filhos como guardou Jesus. E continua dizendo, com a mesma ternura de Guadalupe: não temas, estou aqui.

Quem se aproxima dEla nunca mais está sozinho. Nunca mais precisará uivar sobre o túmulo de alguma promessa quebrada. Porque o amor materno que a vida não conseguiu manter, Deus devolveu no alto da cruz. E ninguém pode tirar isso de nós.


Referências utilizadas

  • Filme: Minhas tardes com Margueritte.
  • Nican Mopohua (relato sobre as aparições de Nossa Senhora de Guadalupe).
  • Nota do Dicastério para a doutrina da fé: Mater Populi Fideles.
  • Sobre Raquel como tipo de Maria: Brant Pitre, Jesus e as raízes judaicas de Nossa Senhora.
  • Podcast sobre o costume judaico de rezar junto aos túmulos dos patriarcas: https://www.ancientfaith.com/podcasts...
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1 month ago
32 minutes 9 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
"A Verdade vos libertará"

Existe um momento em que a verdade deixa de ser uma ideia abstrata e se torna um espelho. E se olhar para esse espelho dói, quase sempre é porque ele está mostrando exatamente o que precisamos ver.

A história do Dr. Travor Kashey deixa isso claro. Ele era procurado por atletas de elite, gente disciplinada, que seguia suas instruções com precisão quase militar. Mas um dia apareceu alguém comum, com uma rotina comum, que voltou dizendo que o método não funcionava. Quando ele foi investigar, descobriu que o problema não era o método. Era a distância entre o que a pessoa achava que fazia e o que de fato fazia. Bastou medir a realidade para tudo mudar.

Acontece o mesmo com a alma. Às vezes corremos como aquela lagartixa tentando fugir do carro, cheios de vontade de melhorar, mas indo na direção errada. A verdade, quando finalmente aparece, é o mapa e também a coragem de ajustar a rota. O Evangelho diz que a verdade liberta, e essa liberdade é muito concreta. Não é teórica. Não é abstrata. É o tipo de liberdade que começa quando enfrentamos a bagunça interior com sinceridade, humildade e um coração disposto a não fugir.

A verdade provoca. Às vezes fere. Mas cura. Como o fogo que queima a palha e deixa o ouro brilhando. Como o olhar de Cristo que mostra aquilo que somos e, ao mesmo tempo, aquilo que podemos ser. Na frente da Cruz, a alma se vê como num espelho mais nítido que qualquer reflexo de vidro. Ali entendemos nossos limites, mas também nossa grandeza. Ali percebemos que somos mais do que nossos fracassos porque alguém nos amou até o extremo.

Essa clareza transforma. Ela nos dá a força para parar de imaginar e começar a agir. Como lembrava São Josemaria: «Concretiza. Que os teus propósitos não sejam fogos de artifício brilhando um instante para depois virar apenas uma vareta que se joga fora.»

Quando permitimos que a verdade se torne ação, até os obstáculos mais teimosos cedem. A alma respira. A vida se organiza. E a esperança volta a fazer sentido.

Estamos às vésperas do Advento, tempo de olhar para frente com lucidez, preparando o coração para um encontro que muda tudo. E nesse caminho, a pureza e a transparência de Maria nos mostram que a verdade não é uma ameaça. A verdade é a porta. E a liberdade é o que há do outro lado.


Referências presentes na meditação

  • Bento XVI, Spe Salvi
  • São João Paulo II, Veritatis Splendor
  • Sobre Travor Kashey: Michael Easter, Embrace Discomfort (audilivro).
  • Jonathan Haidt, A geração ansiosa.
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1 month ago
32 minutes 2 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Reinar com Cristo

Há pessoas cuja autoridade não vem da força, mas de algo mais profundo. Motolinía era assim. Um franciscano magro, pobre, quase irrelevante aos olhos do mundo. Caminhava pelas estradas poeirentas do México como quem não tem nada. E, no entanto, quando os conquistadores espanhóis o avistavam, desmontavam dos cavalos, tiravam os capacetes e ajoelhavam-se diante dele em silêncio. Os indígenas olhavam aquilo perplexos, sem entender como homens armados se curvavam diante de um “pobrezinho”.

A resposta não estava na aparência. Estava no Reino.

O Reino que Cristo trouxe não é feito de muralhas ou exércitos. Não se impõe pela força. É silencioso, discreto, mas absolutamente real. Surge onde um coração se abre para Deus e permite que Ele conduza. É um Reino que começa dentro de alguém e, a partir dali, transforma tudo ao redor.

Jesus afirmou: “Foi-me dada toda a autoridade no Céu e na terra.” Mas essa autoridade não oprime. Ela ilumina. Ordena. Restaura. E o mais surpreendente é que Ele não guarda essa autoridade apenas para Si. Ele a partilha com os que O seguem. Convida cada um de nós a participar desse reinado, governando com Ele não por domínio, mas por amor.

A Bíblia fala do “Filho do Homem vindo sobre as nuvens”, uma imagem antes reservada ao próprio Deus. Jesus assume esse título para revelar Seu mistério: um Rei que reina servindo, vence obedecendo, governa amando. E, de repente, percebemos que Ele quer que reinemos com Ele nesta lógica divina tão distante das vaidades humanas.

Reinar com Cristo não significa mandar. Significa elevar. Não significa dominar. Significa transformar. O “reinado” que Ele nos confia passa pelos pequenos territórios da vida: um laboratório, um escritório, uma sala de aula, uma mesa de jantar, uma conversa difícil, um momento de paciência. São reinos discretos, mas reais, onde Deus deseja entrar.

Maria reinava assim em Nazaré. Sem coroa ou aplausos. Com um amor silencioso que transformava cada gesto em território de Deus. Cristo nos oferece a mesma missão: permitir que Ele governe nossas intenções, nossos trabalhos, nossas escolhas e nossos relacionamentos. E quando isso acontece, até o mais simples dos gestos ganha peso de eternidade.Talvez seja por isso que João Paulo II clamava: “Não tenhais medo! Escancarai as portas a Cristo!” Porque, quando Cristo entra, qualquer espaço — por menor que pareça — torna-se Reino. E então algo novo começa a acontecer: as pessoas ao nosso redor sentem uma autoridade que não vem de nós, mas dEle. Uma autoridade que consola, não pesa. Que ilumina, não assusta. Que levanta, não oprime.

Foi assim com Motolinía. Assim com tantos santos. Assim com todos os que deixam Deus ocupar o centro da própria vida. E assim pode ser conosco.

O Reino começa quando você permite que Deus governe o chão em que você pisa._________________

📚 Referências utilizadas


Podcast Lord of Spirits com referências bíblicas e mitológicas sobre o reinado de Cristo e a nossa participação neste tomando o luaga dos anjos caídos: https://www.ancientfaith.com/podcasts...https://www.ancientfaith.com/podcasts...https://www.ancientfaith.com/podcasts...


Livro sobre transição histórica da religião centrada num Deus supremo para o politeísmo:

Andrew Lang, The Making of Religion.

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1 month ago
31 minutes 22 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Que recompensa eu busco?

Tolstói escreveu em Guerra e Paz que as grandes batalhas da história não se travam apenas nos campos, mas dentro do coração humano. Entre ambições e medos, o que realmente move cada um de nós?

É fácil pensar que as pessoas agem por ideal, por vocação, por amor — mas se olharmos mais fundo, veremos um labirinto de intenções escondidas. O coração humano é, como diz o Salmo, um abismo: “Impenetrável é o homem, seu coração é um abismo.”

Na verdade, quase tudo na vida é uma batalha silenciosa entre a pureza e o egoísmo. Mesmo nas obras mais belas — uma música, uma oração, um gesto generoso — podem se misturar intenções turvas: o desejo de ser admirado, de ser elogiado, de ser reconhecido. Mas o olhar de Cristo, que penetra o mais fundo de nós, não nos condena — Ele nos purifica.

É nesse olhar que começa a verdadeira retidão de intenção.

Um sacerdote me sugeriu, para manter o coração livre, parar de olhar o número de visualizações de seus vídeos no YouTube. “Melhor não saber”, dizia ele. “Assim o coração não se apega.”

Há sabedoria nisso. Porque o coração, como uma planta, cresce para onde recebe mais sol. E se a luz que o alimenta é a do aplauso, ele morre de sede quando vem o silêncio.

Mas há outro caminho: o de olhar para Deus, e não para os números. “Quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz a direita”, disse Jesus. Ou, em outras palavras: faz o bem, e esquece que fez. Essa é a batalha mais profunda — não contra os outros, mas contra o próprio orgulho.

A mortificação e a oração são as armas.

A primeira limpa o terreno; a segunda o enche de vida.

Maurice Blondel dizia: “O que queremos, quando queremos tudo o que queremos?”

No fundo, é sempre o amor.

Por mais distorcido que esteja, é sempre o amor que nos move. No final de Guerra e Paz, um personagem desiludido encontra a redenção não na glória, mas no perdão. Ele descobre que o amor — o amor de uma mulher, o amor misericordioso de Deus — “lhe explicou tudo”. Essa frase, mais do que filosófica, é teológica: “O amor me explicou tudo. O amor resolveu tudo.”

Quando o coração é tocado por esse amor, até os nossos dragões se tornam aliados. Mesmo o orgulho, a vaidade, o desejo de ser visto, podem ser transformados em força se forem integrados — se o olhar for purificado pela presença de Deus.

Até os olhos que antes julgavam o mundo passam a ver como olhos de Cristo: olhos verdes de esperança, que enxergam a presença de Deus em cada detalhe, em cada pessoa, em cada sinal verde do caminho.

E então a batalha pela retidão de intenção se torna uma dança: a alma, enfim, aprende a olhar só para Ele — e a se alegrar com o que apenas Ele vê.

📌 “O amor me explicou tudo. O amor resolveu tudo.” 📖 (São João Paulo II, poema da juventude)


📚 Referências

  • Sl 64(63), 7 – “Impenetrável é o homem, seu coração é um abismo.”
  • Mt 6, 1-6 – “Quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz a direita.”
  • Rm 8, 13 – “Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, pelo Espírito, vivereis.”
  • Ef 1, 4 – “Deus nos escolheu antes da fundação do mundo para sermos santos em sua presença, no amor.”
  • Guerra e Paz, de Liev Tolstói.
  • Maurice Blondel, L’Action (1893).
  • Live do Prof. Diego Reis sobre a Presença: https://www.youtube.com/live/m0QOkOWz...
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1 month ago
32 minutes 43 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Ἀγάπη τέλος - O amor é o fim.

A enfermeira americana que criou o primeiro serviço de cuidados paliativos dizia que o morrer se parece com um nascimento ao contrário.

Três semanas antes do fim, o corpo começa a se afastar do mundo: recusa o alimento, prefere o silêncio, dorme mais do que fala. É como se a alma fosse se recolhendo para o deserto — o mesmo deserto de que fala o profeta Oséias: “Eu vou seduzi-la, levando-a para o deserto e falando-lhe ao coração.”

A morte, então, não é um castigo. É um chamado. É o momento em que Deus nos toma pela mão e nos conduz para um lugar onde não há mais máscaras, nem ruído, nem distração — só o coração e Ele.

É ali que o amor deixa de ser promessa e se torna encontro.

Há quem tema a morte como se ela fosse o fim, e há quem a ignore como se nunca fosse chegar. Mas para o cristão, a morte é um ato de confiança: o último “sim” que damos Àquele que sempre nos amou.

É o salto da fé para os braços de um Pai.

Oséias descreve essa entrega com palavras de casamento: “Eu me casarei contigo para sempre, com amor e carinho.”

Morrer, à luz da fé, é o momento em que a alma, cansada das ilusões, volta a chamar Deus de “meu marido” — não mais “meu Baal”. Não busca mais o que Ele pode dar, mas o próprio Deus que dá.

São Josemaria escreveu:

“Quando eu Te vir pela primeira vez, Senhor, esconderei minha fronte em Teu regaço e chorarei como uma criança.”

É isso o que acontece com quem morre em paz: o choro já não é de medo, mas de ternura. O olhar que um dia evitou o de Deus por vergonha, agora o procura por amor.

E então tudo se cumpre: a fé se transforma em visão, a esperança se faz posse, e o amor — aquele amor que começou tímido, entre quedas e recomeços — se torna eterno.


📌 “Eu te desposarei para sempre, conforme a justiça e o direito, com amor e carinho.” (Os 2,19)_________📚 Referências

  • Os 2,14-20 – “Eu a levarei para o deserto e lhe falarei ao coração.”
  • Rm 8,31-39 – “Quem nos separará do amor de Cristo?”
  • Sl 131(130) – “Como criança desmamada no colo da mãe.”
  • Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios.
  • Entrevista com enfermeira especialista em ajudar pessoas morrendo: https://www.artofmanliness.com/people...
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2 months ago
29 minutes 32 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Esperança em face à morte

Na véspera do Natal de 1915, Albert Einstein recebeu uma carta vinda da lama das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. O remetente era Karl Schwarzschild — físico, astrônomo, soldado. Dentro, rabiscos quase ilegíveis, escritos entre explosões e febres. Entre aquelas linhas, Einstein encontrou algo extraordinário: a primeira solução exata para suas equações da relatividade geral.

Mas o que ele não sabia era que o autor já havia morrido.Morrido com o corpo queimado por gás tóxico e a alma aflita pela própria descoberta: a “singularidade” — o que hoje chamamos de *buraco negro*. Um ponto onde o tempo se curva sobre si mesmo, o passado e o futuro se tocam e até a luz parece prisioneira.

A morte se parece um pouco com isso: um limite invisível, o medo de ser tragado pela escuridão. “Venit nox” — vem a noite, dizia Jesus. E, de fato, a noite vem para todos nós. Mas a fé transforma essa mesma frase.

Porque Cristo desceu até o buraco negro da morte — e explodiu ali dentro uma luz mais forte que mil sóis.

A Ressurreição foi a explosão divina que quebrou a gravidade da morte, abrindo uma passagem para a eternidade.O túmulo vazio é a prova de que a noite não é o fim — é apenas o instante que antecede o amanhecer.

E é por isso que os cristãos, desde os tempos antigos, aprenderam a *zombar da morte. A véspera de Todos os Santos — o antigo *All Hallows’ Eve — nasceu como um riso sagrado diante da escuridão.

Não se trata de negar o mal, mas de proclamá-lo vencido. De afirmar que os demônios foram derrotados, que o medo foi acorrentado, e que o amor é o único poder que permanece.

Por isso, diante da morte, o cristão não se desespera: ele espera.

Sabe que “vem a noite”, mas pede com fé: “Mane nobiscum, Domine — fica conosco, Senhor, porque o dia declina.”

E escuta, em resposta, a voz do próprio Cristo: “Aquele que me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.”📌 A morte não é o fim. É apenas a porta por onde a eternidade começa.

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📚 Referências

  • Jo 9,4 – “Vem a noite, quando ninguém pode trabalhar.”
  • Jo 1,5 – “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a dominaram.”
  • 1Cor 15,55 – “Ó morte, onde está a tua vitória?”
  • Ap 14,13 – “Bem-aventurados os que morrem no Senhor.”
  • C.S. Lewis, Mais Além do Planeta Silencioso (Trilogia Cósmica).
  • Podcast sobre Halloween que cita a Krampusnacht: https://www.ancientfaith.com/podcasts...



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2 months ago
29 minutes 14 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Em busca do tesouro escondido

Ela morava em uma mansão silenciosa do Paquistão, cercada por servos e jardins de jasmim. Seu nome era *Bilquis Sheikh*, e até então sua vida parecia perfeita — poder, respeito, tradição.Mas, à noite, os sonhos a perseguiam. Sonhos sobre um Deus que a chamava pelo nome.

Um dia, uma freira cansada e sorridente segurou suas mãos e disse algo impensável:

“Fale com Ele… como se fosse seu Pai.”

Aquilo a desarmou. Ninguém jamais tinha falado de Deus assim. No Islã que ela conhecia, o Criador era grande demais, distante demais. Mas naquela tarde, entre lágrimas e coragem, Bilquis se ajoelhou e sussurrou a palavra proibida: “Pai.”E o mundo dela nunca mais foi o mesmo.

A conversão de Bilquis é o retrato da parábola do tesouro escondido (Mt 13,44). O Reino dos Céus é algo que precisa ser buscado, encontrado — e comprado com tudo o que temos. É uma aventura pessoal, silenciosa e transformadora.O homem que acha o tesouro o esconde de novo, cheio de alegria, e vende tudo o que tem para comprá-lo.É assim também com quem encontra Deus: primeiro o vislumbre, depois a entrega.

Encontrar o tesouro é descobrir que o caminho da fé é mais íntimo que doutrina e mais arriscado que certeza. É seguir um chamado que ninguém mais escuta, vender os falsos confortos e correr o risco de perder tudo — para, enfim, ganhar o essencial.

E como Bilquis, cada um de nós precisa passar por essa travessia: da crença à confiança, da distância ao abraço, do “Deus lá em cima” ao “Pai que me ouve”.O tesouro continua escondido, sim, mas quem já o viu nunca mais consegue viver sem buscá-lo.

📌 “Alguém encontra um tesouro escondido num campo. Cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.” (Mt 13,44)

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📚 Referências

  • Mt 13,44 – Parábola do tesouro escondido.
  • Lc 7,36-50 – Jesus e a mulher pecadora.
  • Magnificat (Lc 1,46-55).
  • Atrevi-me a Chamar-lhe Pai – Bilquis Sheikh.
  • Pascal, Pensées – Tipos de pessoas diante de Deus.
  • São Josemaria Escrivá, Caminho, nº 432.
  • U2, I Still Haven’t Found What I’m Looking For (The Joshua Tree, 1987).

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2 months ago
30 minutes 39 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
A virtude da urbanidade

A mesa estava posta. Pães, vinho, frutas secas, o murmúrio dos convidados — e um silêncio desconfortável. O fariseu Simão havia convidado Jesus para jantar, um gesto de cortesia, talvez até de curiosidade. Mas o olhar dele era calculado, distante, como quem mantém uma certa reserva para não comprometer a própria reputação.

Foi então que uma mulher entrou. Ninguém a esperava, e todos sabiam quem ela era. Uma pecadora. Deveria ser expulsa imediatamente — mas ela não foi. Permaneceu de joelhos, chorando aos pés de Cristo, lavando-os com lágrimas, enxugando-os com os cabelos e derramando perfume.Simão se irrita com a cena; Jesus a acolhe. Ele percebe o gesto de amor escondido na delicadeza de uma mulher que sabe amar com gestos concretos — e ensina que há uma forma de amor chamada urbanidade: o bom gosto da caridade, a ternura em pequenos detalhes.

Ser urbano é amar com atenção. É servir a mesa e esperar o outro se servir antes. É oferecer um copo d’água antes de falar de si. É lembrar um aniversário, ouvir com paciência, cuidar de um pequeno detalhe que ninguém notaria — mas que aquece um coração.

A urbanidade nasce da caridade, mas se expressa na forma humana do amor: nos gestos, no tom da voz, na maneira de olhar e de cuidar.Jesus, ao receber o carinho daquela mulher, nos mostra que a delicadeza também é uma força espiritual — e que até as boas maneiras podem ser santas quando nascem de um coração que ama.

Em um mundo onde a grosseria se confunde com sinceridade, a virtude da urbanidade é uma revolução silenciosa. Ela transforma o convívio, salva a convivência, devolve humanidade à fé.

E lembra que, entre o ruído e o descuido, o verdadeiro amor se manifesta não só nas grandes renúncias, mas nas pequenas gentilezas.


📌 “Os muitos pecados dela foram perdoados, porque ela muito amou.” (Lc 7,47)


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📚 Referências

  • Lc 7,36-50 – Jesus na casa de Simão, o fariseu.
  • São Josemaria Escrivá, *Caminho*, n. 541 — “Há uma urbanidade da piedade...”
  • São Josemaria Escrivá, *Sulco*, n. 728.
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2 months ago
30 minutes 46 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Através da chuva e das chamas

O palco era pequeno, o público, anônimo. Mas Bono Vox cantava como se o mundo inteiro dependesse daquela voz.

A música era Bad, composta para um amigo mergulhado no vício. “Into the night, through the rain, through the flame…” — versos que falam de uma travessia, da chuva e do fogo, da noite para o dia. O caminho da purificação.

Há momentos em que a vida parece fazer o mesmo conosco: atravessa-nos com a chuva fria da dor e depois nos faz passar pelo fogo que queima o orgulho, o apego, o medo. É assim que Deus nos purifica — não para nos castigar, mas para libertar.

A água do batismo, o fogo do Espírito, o deserto do coração. Cada prova é uma etapa desse mesmo processo: lavar o corpo, depois purificar o espírito. O vício, a idolatria, o orgulho — tudo aquilo que ocupa o lugar de Deus em nós precisa ser arrancado pela raiz. Não é um castigo, é um ato de amor.

A purificação é o oposto da anestesia espiritual. É o momento em que Deus cutuca a nossa ferida, não para ferir mais, mas para curar.

São João da Cruz dizia que há duas purificações: a dos sentidos e a do espírito. A primeira é quando abrimos mão do prazer fácil, a segunda é quando deixamos que Ele queime o orgulho que escondemos até de nós mesmos.

Pedro, que prometeu nunca abandonar o Senhor, precisou chorar amargamente para se tornar o pastor que sustentaria a Igreja. E cada lágrima, cada queda, cada noite escura pode ser o fogo que nos devolve o ouro escondido sob a fuligem.

Purificar-se é aprender a ver o sofrimento como o lapidador do amor. É atravessar a noite escura guiado apenas pela chama do coração.

E quando a aurora enfim chegar, perceber que, por trás da chuva e do fogo, Deus nos conduzia o tempo todo — até o dia, até a luz.

📌 “Criai em mim, Senhor, um coração puro” (Sl 51,12)



📚 Referências

Parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31).

Mt 5,8 – “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”

Rm 8,15 – “Não recebestes um espírito de escravidão, mas o Espírito de filhos.”

Hb 10,22 – “Aproximemo-nos com o coração purificado de toda má consciência.”


Bad — U2.

Subida ao Mone Carmelo – São João da Cruz.

Caminho Espiritual – São João da Cruz.

A Nação Dopamina – Anna Lembke.

Conversas cruciais – E. Gregory et al.

Guerra e Paz – Liev Tolstói.

Sulco, São Josemaria Escrivá, nº 714.

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2 months ago
33 minutes 19 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Ut videam!

Naquele convés que afundava no frio do Atlântico, os músicos do Titanic tocaram até o fim. A última melodia foi Amazing Grace — composta por um homem que, cego pela ambição e pelo pecado, reencontrou a luz em meio a uma tempestade. “Estava perdido, e fui encontrado. Era cego, e agora vejo.”

Essa mesma súplica ecoa nas palavras de Bartimeu, o cego que clamava: “Senhor, que eu veja!” E tornou-se também a oração que guiou São Josemaria por dez anos, até que os papéis dispersos da sua vida se uniram em uma iluminação definitiva. O pedido que parecia sem resposta foi, na hora certa, transformado em missão.

Ver além do que os olhos enxergam — isso é a visão sobrenatural. É perceber que as realidades humanas, tão banais à primeira vista, são cheias de valor eterno. Como uma árvore que mergulha suas raízes na terra, ergue o tronco ao céu e se abre em frutos, assim também a alma aprende a conectar passado e futuro, o humano e o divino, o pequeno e o eterno.

Sem essa visão, a vida se fragmenta em pedaços soltos, como equações sem sentido. Com ela, cada detalhe — um encontro, uma palavra, um sofrimento — se transforma em linha que aponta para Deus.

Nossa Senhora, a Mulher que sabia “juntar as coisas no coração”, nos ensina a viver desse modo: acolher cada realidade com olhos iluminados pela graça, até ver nela não apenas o que é, mas o que Deus faz dela.

📌 Peçamos a graça de aprender a enxergar assim: com raízes firmes na fé, o tronco erguido ao céu e ramos cheios de frutos que revelem o amor de Deus em tudo.


📚 Referências

Gn 2,9; Gn 3,22; Ap 22,2 – A árvore da vida.

Mc 10, 46-52 – Bartimeu, o cego que clama: “Senhor, que eu veja.”

Lc 2,19 – Maria “guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração.”


Amazing Grace – John Newton.

São Josemaria Escrivá, Caminho, ponto 266.

Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes 43.

Bilquis Sheikh, Atrevi-me a Chamar-lhe Pai.

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3 months ago
31 minutes 3 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
A Guerra Espiritual

“Esse é o nosso destino na terra: lutar por amor até o último instante.”

A frase poderia ser saída de um épico, mas ela fala da vida real. Como Nhô Augusto, em A hora e a vez de Augusto Matraga, que morre lutando, ou como os soldados que enfrentam batalhas sabendo que não há ensaio geral — só vida ou morte. É exatamente isso que acontece também em nossa alma: não estamos em um treinamento, mas em guerra de verdade.

O combate espiritual é radicalmente sério. Está em jogo a nossa vida eterna. São Paulo descreveu isso com clareza: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.” E é esse combate que se trava contra três inimigos antigos: a carne, o mundo e o demônio. A carne, com suas fraquezas e vícios que nos puxam para baixo. O mundo, quando se apresenta como tentação e engano. E o inimigo invisível, que sopra ideias sedutoras para nos afastar da verdade.

Mas não lutamos desarmados. Como Churchill em Dunquerque reuniu barcos de todo tipo para salvar milhares, também nós devemos usar todos os meios: sacramentos, oração, penitência, boas amizades, estratégias práticas. Não se trata de “jogo limpo”: trata-se de reunir tudo o que pode nos manter firmes e vivos.

E não lutamos sozinhos. O Apocalipse nos mostra Miguel e seus anjos combatendo o Dragão. E mostra também uma Mulher vestida de sol, a Virgem Maria, de pé, esmagando a cabeça da serpente. É ela quem nos cobre, é ela quem garante que, mesmo em meio à guerra, não estamos abandonados.

📌 Que a nossa vida seja como a de um soldado fiel, que cai de pé, lutando até o fim, com a certeza de que o amor é a vitória definitiva.


📚 Referências gerais

S. João Cassiano, Sobre os oito pensamentos de malícia.

J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis.

Eiji Yoshikawa, Musashi.

Filme: À prova de fogo.


📖 Referências Bíblicas

Jó 7,1 – “A vida do homem sobre a terra é um combate.”

2Tm 4,7 – “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.”

Rm 8,13 – “Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis.”

Ef 6,12 – “Nossa luta não é contra homens, mas contra os espíritos malignos...”

Ap 12 – A Mulher vestida de sol e a batalha de Miguel contra o Dragão.

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3 months ago
34 minutes 5 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
O que eu faço com a minha raiva?

Ao cair no chão, sangrando e com o corpo moído, Nhô Augusto — o Matraga de Guimarães Rosa — parecia acabado. Mas foi justamente ali, na fraqueza, que ele se levantou para a maior luta da sua vida: domar a própria fúria. Durante anos, segurou por dentro o vulcão da ira, até que um dia, no confronto final, deixou a besta sair. E, paradoxalmente, foi assim que entrou no Céu.

Jacó também lutou, mas de outro modo. Homem avesso a brigas, acabou enfrentando um anjo à beira do Jaboc. Ferido, mancando, recebeu um novo nome: Israel. Ambos, cada um à sua maneira, mostram que até a ira pode ser transformada.

A ira não é só pecado. Como ensinam os santos e confirmam até os psicólogos, ela é uma paixão humana, uma energia vital. Pode nos perder, sim, mas também pode nos salvar — quando direcionada para o bem. Cristo, manso como o Cordeiro, também foi o Leão que expulsou os vendilhões do Templo. A mesma força que destrói pode purificar.

O segredo está em não sufocar nem deixar-se dominar, mas dar lugar à ira justa: expressar, corrigir, agir. A raiva pode ser alarme de que algo precisa mudar. Pode ser motor para uma decisão firme. Pode ser coragem para enfrentar o que evitamos há tempo demais.

Nossa Senhora, forte e decidida, correu às pressas para ajudar Isabel e intercedeu em Caná quando faltou vinho. Ela nos mostra que até a energia da ira, bem orientada, pode se transformar em zelo, em amor ativo, em força para lutar pelo bem.


📌 Que a nossa ira não seja chama que devora, mas fogo que aquece, ilumina e impulsiona para Deus.


📚 Referências

- A hora e a vez de Augusto Matraga, conto do livro Sagarana, Guimarães Rosa.

- Livro sobre a ira citado: Good Anger, Sam Parker.

- Entrevista com o escritor desse livro: aom.is/goodanger.

- Filme: Luz fantasma (Ghostlight).

- Duas palestras de TED Talk sobre o bom uso da ira:

  1.    • How to use anger as a force for good | Mar...  
  2. https://www.ted.com/talks/juna_mustad...
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3 months ago
29 minutes 57 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
Brigando com Deus

Quem nunca se sentiu brigando com Deus?

Há momentos da vida em que o sofrimento nos encurrala, os planos desmoronam, e a oração parece mais uma luta do que um consolo. Foi exatamente isso que Jacó viveu às margens do rio Jaboc.

Naquela noite, ele lutou com um homem misterioso até o amanhecer. Não foi uma batalha qualquer: era o encontro com sua própria verdade, com seu passado de enganos, com sua necessidade de mudança. Ferido, mancando, sem defesas, Jacó finalmente reconheceu quem era. E foi justamente ali, no limite da dor, que recebeu a bênção de um novo nome: Israel — aquele que luta com Deus.

A cruz em nossa vida é esse vale de Jaboc. Não é Deus se divertindo com o nosso sofrimento, mas a graça escondida nas lutas que nos purificam. A dor não é um castigo inútil, mas pode se tornar bênção quando atravessada com fé. Como a água amarga de Mara, que se tornou doce ao toque de um madeiro, também as nossas feridas podem ser transformadas pelo poder da cruz.

E, como no Calvário, Maria permanece de pé. A espada transpassa sua alma, mas ela não cede. Sua firmeza nos ensina que é possível estar ferido e, ainda assim, permanecer. Ao lado dela, descobrimos que até as nossas brigas com Deus podem ser caminhos de graça e de amor.

Quando brigamos com Deus, nós que saímos transformados.


📚 Sobre Jacó e o anjo

Bento XVI, Audiência de 25/05/11.

https://www.vatican.va/content/benedi...

Jordan Peterson, We Who Wrestle with God: Perceptions of the Divine.


📚 Outras referências

Pema Chödrön, Practicing peace in times of war.

Gn 32, 23-33 – A luta de Jacó no vau de Jaboc.

Jo 16, 33 – “Tende coragem, eu venci o mundo.”

Mt 15, 21-28 – A mulher cananeia.

São Josemaria Escrivá, Caminho, ponto 208.

Santo Gregório de Nissa, A vida de Moisés

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3 months ago
31 minutes 57 seconds

Padre Pedro Willemsens - Meditações
A virtude da epiquéia

Um piloto brasileiro cai em território inimigo durante a Segunda Guerra. Machucado e sozinho, sabe que seguir as instruções à risca significaria ser capturado. Então, veste-se como camponês, finge ser um italiano perdido pela guerra, improvisa histórias, aceita caronas perigosas e até pede cigarros a soldados nazistas. Com astúcia, coragem e fé, percorre 350 km até encontrar a liberdade.

Essa história mostra um segredo antigo que os santos e filósofos já conheciam: nem sempre a vida se vence pela força bruta ou pela obediência cega. Existe uma virtude chamada epiquéia, que nos ensina a buscar o espírito da lei acima da sua letra, a enxergar além do óbvio, a encontrar soluções criativas sem trair a verdade.

Jesus mesmo recordou: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” A fidelidade a Deus não está em cumprir regras friamente, mas em respeitar sua finalidade mais profunda: o amor, a justiça, a misericórdia.

A epiquéia é o caminho da eficácia, quando aprendemos que nem sempre a linha reta é o trajeto mais sábio; é o caminho da liberdade, quando não nos deixamos aprisionar pelo vitimismo ou pelo comodismo; e é o caminho do respeito, quando sabemos honrar as intenções maiores de Deus sem nos perder em detalhes menores.

No fundo, trata-se da coragem de viver a fé com inteligência, docilidade e criatividade. Não se trata de trapaça, mas de sabedoria que nasce da confiança em Deus. Porque, como a água que atravessa montanhas, o coração aberto à graça sempre encontra passagem.


📚 Referências utilizadas

Sobre a história do Tenente Danilo Moura:

  • A incrível história do Tenente Danilo Moura  https://www.jambock.com.br/v7/index.p...

Henrique Elfes, “Elogio do jeitinho”:

http://www.dicta.com.br/edicoes/edica...

Bíblia Sagrada (Mt 23, 23; Mc 2, 27; parábola do administrador infiel – Lc 16).

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4 months ago
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Padre Pedro Willemsens - Meditações
Viver a nossa tragédia da manteiga

Na Primeira Guerra Mundial, um jovem soldado estava paralisado pelo medo no meio do campo de batalha. Balas cortavam o ar, bombas explodiam ao redor, e ele não conseguia dar um passo. Foi então que o capelão, Pe. Willie Doyle, saiu de sua trincheira, sentou-se ao lado dele e tirou um terço do bolso. Entre o barulho das armas, começaram a rezar. Terminada a última Ave-Maria, aquele rapaz se levantou com coragem renovada, seguiu em frente e sobreviveu à guerra. Anos depois, pediu para ser enterrado com aquele mesmo terço.

Esse é o poder da esportividade: a coragem de não desistir do jogo mesmo quando parece perdido. Não se trata de não cair — porque todos caímos — mas de levantar-se sempre, de recomeçar quantas vezes for preciso, com a serenidade de quem entende que até as derrotas fazem parte do caminho.

São Josemaria chamava isso de viver a “tragédia da manteiga”: pequenos dramas cotidianos que parecem enormes na hora, mas que, vistos com humor e leveza, se tornam ocasião de crescer. É nesse espírito que São Paulo dizia: “Sete vezes cai o justo, mas se levanta” (Pr 24,16).

A esportividade também é desejo ardente de vitória. O atleta não corre para perder, mas para conquistar o prêmio. E nós também não buscamos uma coroa passageira, mas uma coroa eterna (1Cor 9,25). Por isso, precisamos de treino, perseverança e, sobretudo, humildade para reconhecer limites e corrigir rumos. Como dizia Santo Agostinho: “Melhor andar devagar no caminho certo do que correr fora dele”.

E se alguém encarnou até o fim essa atitude foi Maria. Nenhum jogo lhe foi fácil: desde a fuga para o Egito até o Calvário, sua vida foi marcada por desafios. Mas ela nunca desistiu, nunca abandonou o campo. Por isso recebeu a coroa prometida, aquela que o Apocalipse descreve com doze estrelas.


📚 Referências usadas na meditação

Video sobre Fr. Willie Doyle:    • The Irish Army Chaplain Who Suffered For P...  

Homilía do Papa Leão XIV por ocasião do Jubileu dos esportes:https://www.vatican.va/content/leo-xi...

Carol Dweck, Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso.

Caminho, de São Josemaria Escrivá (C.205; C.249)

Filipenses 3, 13-14

Provérbios 24, 16

1 Coríntios 9, 24-27

2 Timóteo 4, 7-8

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4 months ago
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Padre Pedro Willemsens - Meditações
Nobreza

Davi estava escondido no fundo da caverna. O coração pulsava forte — não pelo medo de Saul, mas pela decisão que teria que tomar. O rei, seu inimigo, tinha entrado sozinho e estava vulnerável. Os soldados de Davi sussurraram: “É a tua chance, mata-o!”. Mas, em vez de cravar a espada, Davi apenas cortou um pedaço do manto do rei. Quando Saul saiu, Davi mostrou o tecido rasgado e disse: “Eu nunca levantarei a minha mão contra o ungido do Senhor”.

É nesse gesto que a verdadeira nobreza se revela. Não é bravata, não é malandragem, não é esperteza que só busca vantagem imediata. A nobreza é a grandeza de quem sabe se elevar acima do instinto, dominar-se e escolher o que é justo, mesmo quando seria mais fácil escolher o atalho.

C. S. Lewis escreveu: “Rimo-nos da honra e ficamos chocados ao descobrir traidores entre nós”. Vivemos em uma cultura que valoriza a esperteza, mas é a nobreza que sustenta o mundo. Não a nobreza da pompa, mas a de quem enfrenta a vida de peito aberto, sem fugir, sem se esconder, sem mascarar a própria responsabilidade.

Ser nobre é ter magnanimidade para doar-se sem medir os custos, é permanecer de pé diante da vergonha e da dificuldade, é cultivar a urbanidade nas pequenas coisas — até no trânsito, onde a pressa costuma roubar a paz.

E se buscamos um rosto onde a nobreza se fez carne, basta olhar para Maria, a mulher mais nobre entre todas, que permaneceu de pé junto à cruz. Sua firmeza silenciosa se transformou em realeza eterna, coroada como Rainha do Céu e da Terra.


📚 Referências usadas na meditação

1 Samuel 24; 26 (Davi poupando Saul), Salmo 113,7ss, 1 Pedro 2,9.

C. S. Lewis – A abolição do homem.

Hino litúrgico “Crux fidelis”.

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4 months ago
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Padre Pedro Willemsens - Meditações
Meditações do padre Pedro Willemsens, do CEAC (Brasília - DF), sobre diversos temas (doutrina católica, temáticas da fé, virtudes, aspectos da vida humana, dentre outros).