
Para além de estarmos no tempo do Advento, em que a Igreja nos convida a preparar a vinda do Senhor, celebramos hoje também a solenidade da Imaculada Conceição. As duas coisas ajudam-nos a perguntar: por que é que Deus enviou Jesus Cristo ao mundo, assumindo a nossa condição humana? Fê-lo para nos salvar, para nos tornar capazes de uma vida plena, daquela felicidade que, aos olhos de Deus, é promessa universal para todos.
Quando falamos de felicidade e de alegria não ignoramos que a nossa vida é muitas vezes atravessada por inquietações, erros, desânimo, más escolhas. Conhecemos bem a nossa fragilidade, os limites e o mau uso da liberdade. Por isso, como cristãos, dizemos muitas vezes que “nos esforçamos para ser santos”. Mas talvez o essencial não seja “esforçarmo-nos para ser bons por nossas forças”, e sim abrir-nos para receber a graça de Deus, que é ela própria que nos transforma, nos torna bons e fiéis.
A primeira leitura fala-nos, com imagens fortes, do pecado original como incapacidade de viver totalmente disponíveis para Deus. A serpente, figura do mal, é condenada a rastejar e a comer o pó da terra, e é-nos dada aquela promessa: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher; ela esmagar-te-á a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. O mal será derrotado, mas ficamos com o calcanhar ferido. E sabemos como custa caminhar com uma ferida no pé: é mais difícil andar na noite, nas sombras, suportar as consequências do pecado.
Contudo, este ferimento não é a última palavra. Deus “do alto dos céus” abençoou-nos “com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. À nossa fragilidade, Deus contrapõe a superabundância da graça. É por isso que, no Evangelho, o anjo saúda Maria como “cheia de graça”: toda a sua existência foi transformada pela ação de Deus. Em atenção aos méritos futuros de Cristo, Maria foi preservada das consequências do pecado original e pôde caminhar para Deus com liberdade e paz.
Para percebermos melhor, podemos recorrer a duas imagens imperfeitas, mas úteis. A primeira é a de uma mãe que ama profundamente o seu filho e, conhecendo o caminho por onde ele vai passar, cheio de pedras e obstáculos, os vai retirando para que ele possa caminhar sem tropeçar. De certo modo, foi isto que Deus fez com Maria: retirou do seu caminho tudo o que a pudesse afastar do bem. A segunda imagem é a de uma vacina. Quando somos vacinados, não desaparece a possibilidade de adoecer, mas ganhamos defesas para enfrentar a doença e superar as suas consequências mais graves. Assim também a graça de Deus na nossa vida: não nos tira a liberdade, mas dá-nos força interior para resistir ao mal e para recomeçar.
Maria e Jesus não deixaram de ser livres. Poderiam ter escolhido o mal, mas, na verdade, permaneceram sempre fiéis ao bem. E aqui se joga também a nossa resposta à graça. Podemos decidir apenas apoiados nas nossas capacidades, fazendo da vida um sacrifício absurdo em que pensamos poder tudo sozinhos, ou podemos acolher o dom da encarnação: o Verbo fez-se carne para que, pela graça, participemos da própria vida de Deus. E, sendo um povo mariano, sabemos que em Maria já se realizou aquilo a que todos somos chamados, se nos deixarmos conduzir pela graça.
O dogma da Imaculada Conceição pode ser visto como uma música que embala e uma força que nos empurra a viver na graça de Deus. Quando fazemos o caminho ao ritmo da música, caminhamos mais animados, mais ritmados e até mais unidos. Assim também a graça: aponta-nos o caminho, dá-nos a força para o percorrer e sustenta a nossa fidelidade nas noites escuras e nas nuvens pesadas da vida.
Hoje somos convidados a olhar para Maria como ícone da meta que Deus sonha para nós. Ele deu-nos inteligência, liberdade e desejo de felicidade; pela graça, torna-nos capazes de escolher o bem, de perseverar nas decisões justas e de saborear, já neste mundo, a alegria e a paz de quem vive em comunhão com Jesus.