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Uma palavra no seu caminho
Luís M. Figueiredo Rodrigues
1122 episodes
1 day ago
Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.
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Christianity
Religion & Spirituality
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Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.
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Uma palavra no seu caminho
Festa da Sagrada Família - Homilia

Há realidades da vida religiosa e da vida crente que facilmente se deixam olhar de modo idealizado, perfeccionista e até idílico, como se vivessem num plano sem rugosidades nem chão. A família é um desses lugares onde a tentação do ideal é forte: imagina-se uma “família cristã” como molde rígido ao qual todas as famílias e todas as histórias deveriam caber. Não é esse o caminho. Quando se contempla a família de Nazaré, não se recebe um modelo estreito para reproduzir, mas uma forma de viver: uma familiaridade que pode existir na família nuclear, na família alargada, nas famílias recompostas, e também em comunidades como a “família hospitaleira”, onde homens e mulheres se encontram e, por diversas circunstâncias, constroem uma casa comum.


O que se entende, então, por “família” e por “familiaridade” em sentido cristão? Antes de mais, a consciência de que todos derivam do mesmo Pai, Deus, e que, por serem filhos, se devem tratar como irmãos. As primeiras comunidades cristãs diziam-no com naturalidade; hoje, por vezes, reserva-se a palavra “irmão” para contextos religiosos, esquecendo que o estilo cristão é, todo ele, um modo de viver como família de Deus. É nesse horizonte que ganha relevo o apelo paulino: suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro; como o Senhor perdoou, assim também vós. A consequência concreta de vestir o “traje” da misericórdia é um perdão real, praticado, que não fica em teoria. E, acima de tudo, como toque final, revesti-vos de caridade, vínculo da perfeição: a caridade é o elo que une de forma plena e madura.


Há, porém, uma tensão que se sente no quotidiano: também se escolhe roupa para “estar na moda”, para não destoar, para se sentir integrado. Revestir-se de misericórdia e caridade pode não ser a “moda” de muitos ambientes; pode até parecer um fato antigo, como algo ultrapassado. Por isso é importante a comunidade cristã, onde, pelo menos ao domingo, se volta a ver que esse traje não está fora de tempo: há outros homens e mulheres que o vestem, e nele encontram alegria e vida plena. Ainda assim, isto exige aprendizagem; pede tempo, pede que estas atitudes se entranhem, que se tornem “carne” em quem crê.


Aqui se percebe a importância insubstituível da família biológica. É nela, com o pai e a mãe, com irmãos, tios, avós, primos, que surgem as primeiras relações significativas; é aí que, idealmente, se aprende a experiência fundamental de ser amado de forma incondicional. Sem essa base, educar na fé torna-se mais difícil: se, lá atrás, não houve a experiência de amor recebido e oferecido sem cálculo, a relação com Deus pode ficar mais árdua e inquieta. Quando essa experiência existe, a receção de Deus tende a fazer-se com maior serenidade e confiança. E, a partir daí, a família cristã e a comunidade tornam-se lugar onde se exercitam, de modo continuado, laços de misericórdia, humildade, mansidão, paciência e caridade. “Suportar” uns aos outros, no sentido pleno da palavra, aprende-se também em situações concretas: quando alguém adoece, quando a fragilidade cresce, quando a mente enfraquece e o ritmo abranda, nasce o respeito e a delicadeza que permitem a paz, sustentadas pelo perdão.


A Escritura, aliás, ajuda a purificar equívocos: não é legítimo invocar a religião para privilegiar homens ou mulheres. Há uma beleza particular naquela afirmação: Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade, incluindo a autoridade da mãe. A complementaridade, o lugar próprio e a imprescindibilidade de cada um não se opõem; sustentam-se. Assim se aprende a viver em família com alegria, presença inteira e confiança.

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3 days ago
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Uma palavra no seu caminho
Festa da Sagrada Família - Evangelho

Festa da Sagrada Família - Evangelho

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4 days ago
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Uma palavra no seu caminho
Festa da Sagrada Família - Segunda Leitura

Festa da Sagrada Família - Segunda Leitura

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5 days ago
1 minute 53 seconds

Uma palavra no seu caminho
Festa da Sagrada Família - Primeira Leitura

Festa da Sagrada Família - Primeira Leitura

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6 days ago
1 minute 52 seconds

Uma palavra no seu caminho
Dia de Natal - Homilia

No Evangelho que acabámos de escutar, o prólogo do Evangelho segundo São João, encontramos uma afirmação verdadeiramente bombástica: *“O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.”* Este é o centro, o essencial daquilo que hoje celebramos no dia de Natal. Não se trata de uma frase acessória, mas do coração da nossa fé cristã.

Esta verdade é tão importante que, cada vez que recitamos o Credo na Eucaristia, quando dizemos *“e encarnou”*, somos convidados a fazer um gesto especial de reverência. No dia de Natal, aqueles que puderem ajoelham-se nesse momento, para mostrar com o próprio corpo o quanto esta verdade é fundamental para nós: Deus fez-Se homem.


Aqui começa a revelar-se uma tensão que muitas vezes marca a celebração do Natal. Por um lado, celebramos uma realidade profunda, central e decisiva para a vida de todos nós: Deus fez-Se carne e habitou entre nós. Por outro lado, a forma como o Natal é vivido nas famílias, nas cidades e nas vilas pode facilmente parecer uma festa infantil, ou até infantilizante. Esta tensão mostra-nos como a religião pode, por vezes, ser mal vivida ou mal compreendida, levando a uma experiência que não assume plenamente aquilo que somos enquanto homens e mulheres adultos, capazes de profundidade, de pensamento e de responsabilidade.

Contudo, quando afirmamos que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós, estamos a dizer algo imensamente profundo e exigente. Deus podia ter vindo ao mundo apenas como Deus: apresentando-Se, falando, realizando milagres. Mas não foi assim que escolheu vir. Deus veio ao mundo assumindo a nossa condição humana. Não está apenas diante de nós; está em nós. Assumiu aquilo que somos, a nossa fragilidade, os nossos limites, a nossa história.

Ao assumir a condição humana, Deus passa a falar connosco a partir da nossa própria experiência. O Verbo eterno diz Deus através das nossas emoções, dos nossos sentimentos, da nossa forma humana de pensar e de compreender o mundo. Por isso, o dia de Natal é, de certa forma, o dia da sabedoria: o dia em que, a partir da nossa própria vida concreta, temos legitimidade para fazer experiência de Deus, para pensar quem Ele é e reconhecer a Sua presença no nosso quotidiano.

Esta experiência não tem nada de infantil. Pelo contrário, humaniza-nos profundamente. Quando vivemos atentos à nossa vida, às nossas ações, aos nossos sentimentos e emoções, começamos a pressentir a presença de Deus. E, sem nos darmos conta, percebemos que aquilo que desejamos no mais fundo de nós — aquilo que queremos, pensamos e procuramos — é sempre uma vida plena, uma plenitude que nos transcende. Todos nós desejamos “ser como deuses”, isto é, desejamos plenitude. Podemos procurar esse desejo pela transgressão ou pela obediência.

Em Jesus Cristo, Deus fala-nos em linguagem humana e mostra-nos que fomos criados à Sua imagem e semelhança. No Natal, celebramos precisamente isto: um Deus que se faz próximo, que entra na nossa história, para que, na nossa humanidade, possamos descobrir o caminho da verdadeira plenitude.


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6 days ago
7 minutes 18 seconds

Uma palavra no seu caminho
IV Domingo de Advento - Homilia

Neste quarto domingo do Advento, a liturgia conduz-nos ao mistério da concepção de Jesus no seio de Maria e, com ele, à pedagogia da história da salvação: Deus vai educando o seu povo para que reconheça a sua presença e o seu modo de salvar. A primeira leitura, do livro de Isaías, situa-se num tempo politicamente difícil. Para sustentar o rei Acaz e assegurar o seu povo, Deus convida-o a pedir um sinal; Acaz recusa, invocando uma espécie de prudência religiosa. À primeira vista, a resposta parece correcta; porém, pode esconder uma atitude de fachada: dizer o que soa bem, sem se deixar verdadeiramente interpelar por Deus. É também aqui que a Palavra nos toca, porque a tentação de “respostas certas” sem verdade atravessa a nossa vida: na relação com os outros, connosco mesmos e com Deus. Deus não pede fórmulas impecáveis; pede sinceridade, porque a verdade é sempre luminosa, mesmo quando custa.

O Evangelho segundo Mateus oferece-nos uma anunciação marcada pela interioridade. Maria aparece grávida antes de viver com José. Ele tinha o direito de a expor publicamente e, desse modo, destruir-lhe a vida; contudo, porque a amava e era justo, decide repudiá-la em segredo. Em vez de vingança, escolhe proteger; em vez de humilhar, preserva. E, enquanto pensa nisto, não o vemos a discutir nem a procurar culpados; vemo-lo a meditar e a dar tempo ao acontecimento. Durante a noite, em sonho, recebe a luz de Deus: o que em Maria foi gerado vem do Espírito Santo, e José não deve temer acolhê-la. O sonho, na linguagem bíblica, indica precisamente este lugar interior onde a vida é trabalhada por Deus e onde o coração aprende a escutar.

O nome é decisivo: Jesus significa “Deus salva”. José confia e compromete-se: acolhe Maria e aceita ser pai adoptivo de Jesus, dando corpo à obediência que nasce da fé. Mateus liga esta história à promessa antiga e proclama o seu sentido último: Emanuel, “Deus connosco”. O essencial permanece: Deus não salva à distância; aproxima-se, entra na nossa história e permanece connosco. Nesta última semana do Advento, importa aprender com José a criar espaço interior, apresentando ao Senhor as dúvidas e inquietações sem máscaras. Confiar não é um enfeite espiritual nem um optimismo vago: é abrir-se à palavra de Deus e comprometer-se com o caminho que ela traça, para que o Natal aconteça em nós como presença real de Deus connosco.

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1 week ago
10 minutes 20 seconds

Uma palavra no seu caminho
IV Domingo do Advento - Evangelho

IV Domingo do Advento - Evangelho

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Uma palavra no seu caminho
IV Domingo do Advento - Segunda Leitura

IV Domingo do Advento - Segunda Leitura

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Uma palavra no seu caminho
IV Domingo do Advento - Primeira Leitura

IV Domingo do Advento - Primeira Leitura

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Uma palavra no seu caminho
III Domingo do Advento - Homilia

Na caminhada do Advento, à medida que nos aproximamos do Natal, a Igreja convida-nos a viver a espera com alegria. O terceiro domingo é, por isso, chamado Domingo da Alegria: a cor litúrgica poderia ser roxa, mas surge o rosa, como um roxo aligeirado, para indicar que já começamos a saborear a vinda do Senhor. Seria fácil fazer depender esta alegria de circunstâncias exteriores — por exemplo, de um fim de semana de sol depois de dias de chuva —, mas esse seria o mesmo equívoco que atravessa o Evangelho de hoje. João Baptista, preso e afastado, ouve falar das obras de Jesus e manda perguntar: «És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro?». Na sua expectativa, o Messias viria como juiz severo, a castigar o pecado e a fazer justiça pela via do castigo; e, no entanto, os sinais que lhe chegam revelam um Messias misericordioso. Daí a perplexidade: não é Jesus que falha, é a imagem do Messias que precisa de ser purificada.

A primeira leitura, tirada de Isaías, aprofunda esta conversão através de uma aparente contradição: «Alegre-se o deserto e o descampado… floresça a terra árida… exultem e soltem brados de alegria». Como pode alegrar-se o deserto, lugar de hostilidade e de prova? Precisamente porque a alegria cristã não nasce do conforto, nem de a vida “correr bem”; nasce da confiança no Senhor, colocado no centro. Há alegrias passageiras e alegrias duradouras, conforme aquilo que, de facto, amamos. Santo Agostinho exprime-o de forma incisiva: a alegria é possuir o bem amado. Se o bem amado for apenas o êxito, a saúde ou a tranquilidade, a alegria torna-se frágil; se o bem amado for Deus, a alegria pode atravessar o luto, a perda e a adversidade. E aqui importa distinguir: euforia é exaltação momentânea; alegria é a certeza de comunhão com o Senhor, que reconfigura por dentro a maneira de viver.

É por isso que Jesus não responde a João com uma definição abstracta, mas com sinais: «os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres». João conhecia estes sinais e reconhece, com humildade, que precisa de deixar cair a imagem que construíra na sua cabeça para acolher o Messias que Deus revela; e muitos dos seus discípulos tornar-se-ão discípulos de Jesus. O Advento coloca-nos, então, um desafio muito concreto: passamos por este tempo como quem apenas percorre um calendário, ou deixamos que ele nos converta por dentro — nos desejos, nas expectativas, naquilo que esperamos da vinda do Senhor?

Esta história não terminou há dois mil anos. O anúncio do Messias continua quando, em nome de Cristo, abrimos os olhos a quem não vê, devolvemos esperança a quem está abatido e restituímos dignidade a quem foi diminuído. Também por isso vale a pena pensar nos “presentes” que oferecemos e recebemos. Um presente não é apenas um objecto: é uma oferta que nos torna presentes junto do outro; mesmo um postal, um telefonema ou uma mensagem podem transportar atenção, afecto e esperança. O Natal é isto: a vinda do Messias até nós e, ao mesmo tempo, o encargo de, como cristãos, sermos “outro Cristo”, levando o Senhor aos ambientes onde vivemos. Mas isso não é instantâneo; pede tempo e pede paciência. Santiago recorda-nos a paciência do agricultor: semeia, cuida, confia e espera. Esperar não é ficar parado nem triste; é esperar activamente, com confiança, deixando que a graça do Senhor faça florescer, mesmo em terreno árido, sinais de vida. Por isso, mesmo quando a vida parece deserto e descampado, podemos alegrar-nos: já vimos sinais de que o Senhor vem, e vem para salvar.

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2 weeks ago
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Uma palavra no seu caminho
III Domingo do Advento - Evangelho

III Domingo do Advento - Evangelho

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Uma palavra no seu caminho
III Domingo do Advento - Segunda Leitura

III Domingo do Advento - Segunda Leitura

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Uma palavra no seu caminho
III Domingo do Advento - Primeira Leitura

III Domingo do Advento - Primeira Leitura

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Uma palavra no seu caminho
Nossa Senhora da Conceição - Homilia

Para além de estarmos no tempo do Advento, em que a Igreja nos convida a preparar a vinda do Senhor, celebramos hoje também a solenidade da Imaculada Conceição. As duas coisas ajudam-nos a perguntar: por que é que Deus enviou Jesus Cristo ao mundo, assumindo a nossa condição humana? Fê-lo para nos salvar, para nos tornar capazes de uma vida plena, daquela felicidade que, aos olhos de Deus, é promessa universal para todos.

Quando falamos de felicidade e de alegria não ignoramos que a nossa vida é muitas vezes atravessada por inquietações, erros, desânimo, más escolhas. Conhecemos bem a nossa fragilidade, os limites e o mau uso da liberdade. Por isso, como cristãos, dizemos muitas vezes que “nos esforçamos para ser santos”. Mas talvez o essencial não seja “esforçarmo-nos para ser bons por nossas forças”, e sim abrir-nos para receber a graça de Deus, que é ela própria que nos transforma, nos torna bons e fiéis.

A primeira leitura fala-nos, com imagens fortes, do pecado original como incapacidade de viver totalmente disponíveis para Deus. A serpente, figura do mal, é condenada a rastejar e a comer o pó da terra, e é-nos dada aquela promessa: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher; ela esmagar-te-á a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. O mal será derrotado, mas ficamos com o calcanhar ferido. E sabemos como custa caminhar com uma ferida no pé: é mais difícil andar na noite, nas sombras, suportar as consequências do pecado.

Contudo, este ferimento não é a última palavra. Deus “do alto dos céus” abençoou-nos “com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. À nossa fragilidade, Deus contrapõe a superabundância da graça. É por isso que, no Evangelho, o anjo saúda Maria como “cheia de graça”: toda a sua existência foi transformada pela ação de Deus. Em atenção aos méritos futuros de Cristo, Maria foi preservada das consequências do pecado original e pôde caminhar para Deus com liberdade e paz.

Para percebermos melhor, podemos recorrer a duas imagens imperfeitas, mas úteis. A primeira é a de uma mãe que ama profundamente o seu filho e, conhecendo o caminho por onde ele vai passar, cheio de pedras e obstáculos, os vai retirando para que ele possa caminhar sem tropeçar. De certo modo, foi isto que Deus fez com Maria: retirou do seu caminho tudo o que a pudesse afastar do bem. A segunda imagem é a de uma vacina. Quando somos vacinados, não desaparece a possibilidade de adoecer, mas ganhamos defesas para enfrentar a doença e superar as suas consequências mais graves. Assim também a graça de Deus na nossa vida: não nos tira a liberdade, mas dá-nos força interior para resistir ao mal e para recomeçar.

Maria e Jesus não deixaram de ser livres. Poderiam ter escolhido o mal, mas, na verdade, permaneceram sempre fiéis ao bem. E aqui se joga também a nossa resposta à graça. Podemos decidir apenas apoiados nas nossas capacidades, fazendo da vida um sacrifício absurdo em que pensamos poder tudo sozinhos, ou podemos acolher o dom da encarnação: o Verbo fez-se carne para que, pela graça, participemos da própria vida de Deus. E, sendo um povo mariano, sabemos que em Maria já se realizou aquilo a que todos somos chamados, se nos deixarmos conduzir pela graça.

O dogma da Imaculada Conceição pode ser visto como uma música que embala e uma força que nos empurra a viver na graça de Deus. Quando fazemos o caminho ao ritmo da música, caminhamos mais animados, mais ritmados e até mais unidos. Assim também a graça: aponta-nos o caminho, dá-nos a força para o percorrer e sustenta a nossa fidelidade nas noites escuras e nas nuvens pesadas da vida.

Hoje somos convidados a olhar para Maria como ícone da meta que Deus sonha para nós. Ele deu-nos inteligência, liberdade e desejo de felicidade; pela graça, torna-nos capazes de escolher o bem, de perseverar nas decisões justas e de saborear, já neste mundo, a alegria e a paz de quem vive em comunhão com Jesus.

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3 weeks ago
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Uma palavra no seu caminho
II Domingo de Advento - Homilia

João Batista é uma personagem de fronteira: é o último profeta do Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, já uma figura do Novo. No Evangelho de hoje aparece como grande destaque, batizando e convidando à conversão, isto é, a confessar os pecados e a realizar obras de arrependimento. Converter-se significa deixar para trás formas antigas e desumanas de viver e começar a viver de modo mais digno, mais de acordo com a promessa de salvação de Deus. Por isso, João denuncia com firmeza os fariseus e os saduceus, que cumpriam ritos exteriores, mas não se deixavam tocar no coração, nem se preocupavam com uma verdadeira mudança de vida.

Se olharmos para eles e para aquilo que fazemos neste tempo de Advento, temos também de nos interrogar. Todas as práticas com que preparamos a vinda do Senhor estão, de facto, a provocar mudança na nossa vida? Estão a abrir em nós um lugar onde Deus possa acontecer? Ou corremos o risco de viver mais um Advento que passa por nós sem nos transformar, sem nos modificar, sem nos tornar mais disponíveis para o Evangelho?

Para que o Advento seja, de verdade, tempo de preparação, São Paulo, escrevendo aos Romanos, oferece-nos uma indicação decisiva: tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução. A Palavra de Deus não é apenas informação religiosa a acumular; é instrução no sentido mais profundo, é uma força que nos molda por dentro, que nos forma segundo o desejo de Deus. Por isso o apóstolo acrescenta que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. A escuta da Palavra gera paciência e consolação, e é assim que se acende em nós a verdadeira esperança.

Paciência significa aceitar que nem tudo está bem, reconhecer que em nós há coisas que precisam de mudar, sem cair no desespero nem numa agitação frenética. Deus dá, a seu tempo, a graça necessária para a transformação de que precisamos. Consolação significa experimentar já, ainda que de forma imperfeita, algo daquilo que esperamos. Quando aguardamos algo bom, de algum modo começamos a saborear por antecipação o que está para chegar. Assim também no Advento: esperamos a vinda do Senhor com paciência, mas também com consolação, sentindo e desejando em nós essa presença que se aproxima.

O profeta Isaías ajuda-nos a reconhecer quem é este Senhor que vem. Fala de um rebento que brota de uma raiz humilde, sobre o qual repousa o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, de conselho e de fortaleza, de ciência e de temor de Deus. Não julgará pelas aparências, nem decidirá pelo que ouviu dizer, mas julgará os pequenos com justiça e defenderá os humildes do povo. Com o “chicote da sua palavra” atingirá o violento e com o “sopro dos seus lábios” exterminará o ímpio.

Estas imagens não falam de um Deus que vem para agredir ou destruir, mas de um Senhor que traz uma paz exigente. O “chicote da palavra” não é um instrumento que fere; é uma Palavra que revela o que está mal e pede correção. E o “sopro dos lábios” não é um vento que arrasa tudo, mas a força subtil do Espírito que varre de nós o que é impuro, aquilo que impede que o Natal aconteça com a intensidade que Deus deseja.

Deus vem ao nosso encontro na história concreta da nossa vida. Ele acontece quando nos deixamos purificar pela sua Palavra e pelo seu Espírito. Se, neste Advento, aceitarmos esse trabalho interior de conversão, deixando que a Palavra nos corrija e o Espírito sopre sobre aquilo que em nós é velho, duro ou egoísta, então este não será apenas mais um tempo que passa: será um tempo em que Deus passa por nós e nos renova na fé, na esperança e na caridade.

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3 weeks ago
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Uma palavra no seu caminho
I Domingo do Advento - Homilia

Estamos a iniciar hoje o tempo do Advento, tempo que, liturgicamente, prepara o Natal. A celebração do Natal pode soar a uma notícia já atrasada, porque, se andarmos pelas ruas – sobretudo à noite – vemos que já está tudo iluminado; quando vamos às lojas, deparamo-nos com as decorações de Natal. Socialmente, o tempo de preparação começa muito mais cedo.

Porquê? Porque aí vigora outra lógica – legítima e válida – a lógica do comércio e do consumo, que faz antecipar tudo. E nós vivemos neste mundo, mas com o coração e com os olhos postos em Deus. Este é o grande desafio que o Advento coloca a cada um de nós.

No Evangelho, o Senhor convida-nos a estar vigilantes e recorda os dias de Noé: casavam, davam-se em casamento, comiam, bebiam, viviam a sua vida normal, até que veio o dilúvio… e eles não deram por nada. O que é que o Evangelho nos quer dizer?

Aquilo que fazemos – o nosso trabalho, a vida familiar, os amigos, as diversões – faz parte da existência e não tem mal nenhum; é bom que assim seja. O que é mau é vivermos tudo isso como distração, sem termos o coração e os olhos postos no Senhor. As ocupações do dia a dia, os filmes que vemos, aquilo que apreciamos, não têm nada de mal; o mal está em nos deixarmos distrair do essencial, em perdermos o desejo de encontrar a Deus.

Aqui está o ponto: desejar encontrar Deus em cada circunstância e lugar. E, para isso, precisamos de incorporar em nós esta profecia de Isaías: “Vinde, subamos ao monte do Senhor; Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas.”

Este texto não é apenas memória do passado; diz o que, para mim, é essencial e desejável como o melhor que pode acontecer: “Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há-de vir a Lei e de Jerusalém a palavra do Senhor. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão-de preparar para a guerra.”

Isto mostra a forma como quero estar no mundo: alcançar as coisas não pela violência, não pela guerra, mas pelo compromisso, pelo trabalho, por aceitar aquilo que a terra e o esforço podem dar e viver dignamente. Não levantar a espada nem preparar a guerra, mas ser pacífico, viver de forma harmoniosa, inteira, no nosso convívio humano.

Aqui está uma ideia que nos pode ajudar a preparar o Advento: ter prazer em estar com os outros, em viver em ambientes de paz, harmonia e concórdia. Se nos deixarmos conduzir por este desejo de paz e de prazer bom em estar com os outros, havemos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que esses ambientes aconteçam.

São Paulo, na segunda leitura, concretiza ainda mais: “A noite vai adiantada e o dia está próximo. Deixemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.” Quais são as obras das trevas? Orgias e bebedeiras, devassidões e libertinagens, discórdias e ciúmes. Isto podemos fazer e sentir; o problema está em saber se queremos ficar ali ou sair dali.

Será que gasto tempo com ciúmes, discórdias, devassidões, libertinagens? Ou procuro viver de tal maneira que aquilo que sou e vivo possa ser mostrado diante da luz? Aquilo que se pode mostrar à luz é o que me significa, organiza e faz de mim um homem ou uma mulher mais autêntico, mais pleno.

Por isso, neste tempo de Advento – tempo curto, o Natal chega depressa, mas em que a noite vem mais cedo e temos mais ocasião de recolhimento – talvez fosse bom olharmos para nós mesmos e perguntarmo-nos o que é que realmente desejamos.

Por exemplo, podemos pensar: “O que é que eu quero que Jesus me dê?” Está a chegar o tempo dos presentes. Então vamos pedir: eu quero que Jesus me dê uma vida harmoniosa, uma vida serena e uma vida alegre.

Uma vida harmoniosa, serena e alegre pode parecer uma coisa simples, mas hoje é difícil de conseguir. No entanto, quando a alcançamos, já não queremos outra coisa, porque, na serenidade, na harmonia e na alegria, fazemos uma experiência de encontro com Deus.

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I Domingo do Advento - Evangelho

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I Domingo do Advento - Segunda Leitura

I Domingo do Advento - Segunda Leitura

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I Domingo do Advento - Primeira Leitura

I Domingo do Advento - Primeira Leitura

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Uma palavra no seu caminho
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo - Homilia

O reinado de Cristo convida-nos a desejar um outro estilo de vida. Cristo é a imagem do Deus invisível; quando olhamos para Ele, vemos o rosto do Pai e percebemos como se cumpre o antigo anseio por um rei capaz de oferecer verdade e vida em plenitude, ensinando-nos a viver de modo plenamente humano e conforme os desígnios de Deus. É precisamente por isso que a forma como Jesus Se apresenta como Rei pode desconcertar-nos: não é um rei forte pela força das armas, nem o que põe o mundo “na ordem” pelo poder, mas Aquele que revela uma autoridade totalmente diferente.

Em vez de um trono alto, Jesus tem uma cruz. É a partir dela que reina, assumindo a nossa miséria, a nossa fragilidade, a nossa contingência, o nosso pecado e as nossas limitações. Como todo o rei, tem uma coroa, mas não de ouro nem de pedras preciosas: é uma coroa de espinhos, sinal de que Ele entrou nas nossas dores e conheceu por dentro o sofrimento que atravessa a vida de cada pessoa. E o seu ceptro não é uma vara de autoridade imposta, mas o seu próprio corpo entregue na cruz. Assim, Cristo reconfigura a nossa compreensão de poder e de autoridade e ensina-nos que o verdadeiro reinado nasce do amor que se dá.

Participamos neste reinado quando somos capazes de reconhecer, aceitar e valorizar a verdade da nossa vida, com o que ela tem de alegre e festivo, mas também de doloroso e sofredor. Jesus não quer que escondamos as nossas fragilidades nem que vivamos na ilusão sobre quem somos. Muitas vezes, o nosso sofrimento nasce da distância entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. Na sua coroa de espinhos, o Senhor assumiu a nossa dor; por isso, convida-nos a vivê-la unidos a Ele, de forma verdadeira, intensa e autêntica, sem máscaras nem fugas.

Esta lógica tem consequências para a vida da Igreja. O corpo de Cristo entregue na cruz faz de nós corpo eclesial chamado a abraçar as cruzes uns dos outros e a ajudar-nos mutuamente a carregá-las. A cruz torna-se lugar de glorificação de Deus e, por isso, lugar de realização humana por excelência. Aceitar o reinado de Cristo é aceitar que a salvação e a vida em Deus se acolhem pelo amor, se vivem pela entrega e pelo serviço, e conduzem à participação no próprio destino de Deus.

O Evangelho dos dois malfeitores torna isto visível. Um deles permanece na lógica do poder e da exigência: “Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também.” O outro reconhece a própria culpa, proclama a inocência de Jesus e faz uma oração simples e luminosa: “Jesus, lembra-Te de mim quando vieres com a tua realeza.” Apesar de uma vida marcada pelo pecado, abre-se ao amor de Deus. E Jesus responde imediatamente com misericórdia: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.”

Este “hoje” interroga-nos. Estarei eu, hoje, preparado para acolher o amor de Deus? Desejo, hoje, viver unido a Cristo, assumindo as minhas fragilidades e deixando-me transformar pela sua graça? O paraíso não é apenas uma realidade futura para depois da morte; é todo o lugar onde o reinado de Deus já começa a implantar-se e a manifestar-se. Por isso, neste último domingo do tempo comum, ao celebrarmos Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, peçamos que a Palavra de Deus e as circunstâncias concretas da nossa vida despertem em nós este desejo de viver segundo a lógica do seu reinado: entrar pelo amor, permanecer na entrega e caminhar com a certeza de que Ele nos quer, desde já, com Ele no paraíso.

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Uma palavra no seu caminho
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