“Então, o que é isso mesmo?”, pergunta o caro convidado. “Diria que é um podcast a tentar regredir, a chegar às suas bases espontâneas… aliás, amadoras.” Esta última palavra ressoa como estardalhaço nos ouvidos do crítico, programador e professor Luís Mendonça. “Amador”, e todas as suas variações, são-lhe queridas, mas não revelamos ainda o porquê. Acrescento: foi numa manhã de segunda-feira, cinzenta, com ameaços constantes de chuva. O cofundador do site de cinefilia “À Pala de Walsh” abriu as “portas” da Cinemateca e, após alguma procura por um espaço que pudéssemos estar no sossego dos deuses, demos de caras com o seu escritório, sob a bênção de um gigantesco cartaz de “As Vinhas da Ira”, de John Ford, pendurado na parede.“Tenho algo para ti”, riposto. “Gostaria de falar contigo sobre um filme específico, do qual tenho a certeza absoluta de estares familiarizado.” “O quê?”, pergunta Mendonça. Abro o bloco de notas; o título não é, de todo, fácil e, como se estivesse a articular a palavra impossível popularizada por Mary Poppins, em alto e bom som, arrisco: “Symbiopsychotaxiplasm: Take One”. Os seus olhos brilham. “Não sabia que William Greaves seria um thing neste nosso encontro!”
Material de Apoio
Livro “Fotografia e Cinema Moderno: Os Cineastas Amadores do Pós-Guerra” da autoria de Luís Mendonça - https://www.wook.pt/livro/fotografia-e-cinema-moderno-luis-mendonca/19618720
A mencionada crítica a “Marty Supreme” de Josh Safdie: https://www.indiewire.com/criticism/movies/marty-supreme-movie-review-timothee-chalamet-a24-1235163722/
“Polígrafo”
Confirma-se! O actor de “Je m'appelle Hmmm...”, Douglas Gordon é um dos realizadores do documentário “Zidane, un portrait du 21e siècle”
“Devo dizer que esta será a primeira vez que falamos directamente… quer dizer, estamos à distância, mas mesmo assim…” Avanço como primeira pedra este diálogo em horas de “chichi-cama” com Pedro Cinemaxunga, figura lendária da blogosfera luso-cinematográfica. Hoje, para além do seu espaço ainda imaculado, detém dois podcasts de cinema: “Rádio Cinemaxunga”, considerado por si um exercício lúdico e curatorial, e “Nas Nalgas do Mandarim”, onde, com os dois cúmplices de crime (Miguel Ferreira e Carlos Reis), conduz um programa sem rédeas nem papas na língua sobre cinema e afins. Sobre este episódio em particular, rédeas não há, nem tampouco as ditas papas, mas o resultado é uma conversa entre “gentlemans”, daquelas centradas em histórias e memórias do cinema, temperadas por saudade dos seus tempos áureos. Hoje, com ameaças da Netflix a adquirir a Warner Bros. e a Disney a vender-se à IA, sentimos os “Velhos do Restelo” em nós: datados e obsoletos. Mas o Cinema é uma arte de resistência… é o que é. Eis um “tête-à-tête” com cães, dinossauros, fórmulas, seios, Cannes e o humor de Manoel de Oliveira.
Material de Apoio
Letterboxd de Pedro Cinemaxunga
https://letterboxd.com/cinemaxunga/
Rúbrica “Peitinhos da Quinta”
https://cinemaxunga.net/blog/category/peitinhosdaquinta/
Eis o décimo: a viagem pelas bolas pretas ainda agora começou, mas o Cinema continua, paralelamente, a ser desculpa para encontros e reencontros. Não apenas a “ida à sala” ou o filme da semana na Netflix, mas a cinefilia como cuspo que cola eremitas saídos das suas catacumbas. Não é preciso sair da gruta para topar com o centro da questão; para Ricardo Vieira Lisboa, crítico (um dos fundadores do site À Pala de Walsh) e programador da Cinemateca, bastou trazer um barrete. “Estou preparado para o frio.” E assim foi: para a esquina mais distante da esplanada, sob as luzes longínquas do bar e a protecção luminosa da livraria Linha de Sombra na outra ponta. O tempo era contado e a meteorologia estava longe de ser clemente (digamos que o Inverno espreita, aproximando-se sorrateiro), mas nada impediu o que vinha aí: autores, a sua política e o derrube da mesma; criar, implodir, explodir, reinventar, mais uma conversa sobre Cinema, ou melhor, sobre filmes. “Bardamerda para tudo e todos os que são incapazes de descobrir o cinema nos filmes e só procuram os filmes no cinema”, escreveu, certo dia, o nosso ilustre convidado.
Material de Apoio
Top À Pala de Walsh 2022, onde poderão encontrar a citação no manifesto de Ricardo Vieira Lisboa: https://apaladewalsh.com/2022/12/os-melhores-filmes-de-2022/
Texto mencionado no episódio - “O que é a crítica de cinema” - À Pala de Walsh: https://apaladewalsh.com/2012/07/o-que-e-a-critica-de-cinema/
Acabado de chegar do Festival do Cairo e mesmo assim com uma insaciável sede de Cinema, Rodrigo Fonseca envia-me um SMS: “Vamos ver o Pasolini que passa no Nimas?”. A resposta foi afirmativa; duas horas depois de ter aterrado, lá estava ele, crítico de cinema de Bom Sucesso, à porta da sala, aguardando a minha chegada naquela tarde com cheiro a Inverno. Um abraço de saudade e partimos rumo ao inóspito: Tebas, romances edipianos e mendigos no fim da linha. “Édipo Rei” fora o filme escolhido para unir dois continentes cinéfilos. Depois, seguiu-se o jantar: uns relatos aqui, outros acolá. “Como foi o Cairo?”, ouve-se da minha parte. “E você? Como tem sobrevivido?”, devolve ele. Pedem-se crepes chineses, vaca à moda de Singapura, sopa de cogumelos, porco com bambu e, a acompanhar tudo, cerveja, pois claro! Clico no record: nasce um novo episódio de Bola Preta, com alguma saudade pelo meio — um reencontro entre amigos, irmãos de mães diferentes, de diferentes no planisférios e cinemas diferentes (nada de utopias aqui). “Temos de ser breves”, avisa, relembrando que o avião partirá pouco depois, rumo ao Rio de Janeiro. Secretismos à parte, a cinefilia tem algo de convívio.
“Polígrafo”
“Oliver!”, de Carol Reed, a adaptação do romance de Charles Dickens - Oliver Twist - venceu o Óscar de Melhor Filme em 1968, o antecessor desse prémio, do qual nenhum dos intervenientes da conversa recordava era “In the Heat of the Night” de Norman Jewison, com Sidney Poitier.
Descobrir, escavar, ou simplesmente angariar, a cinefilia como um jogo de trivias, ou o conhecimento pelo desconhecido, escasso, o raro, posicionar perante o lado B do Cinema, fora do cânone, das diretrizes e das reluzentes estatuetas e distinções. Tiago Laranjo, conhecido nestas andanças de ‘podcasting’ é uma autêntica enciclopédia de factos e cinematografias fora do radar, apenas o seu debitar leva-nos ir atrás daquele filme poeirento, sempre anexado a uma história de rodagem, ou um capricho de actor. Mas convenhamos, alertar, este episódio não tem nada de enciclopédico, nem há um pingo de organização ou vontade de sê-lo, é antes um caos trabalhado ao sabor da cevada … “Sexta-feira, promoção de cervejas! Leve 2, Pague 1!” … e assim começa, com alguns cameos pelo meio, interrupções pelo outro, informações em rodapé, Alan Smithee passou por aqui, o tal realizador incognito, assinou no pleno anonimato. Um brinde, ou talvez dois, “como é que eu sei isto?”, pergunta retórica do nosso convidado. Ninguém sabe, mas bebemos à mesma, porque a Beatriz Batarda nos espera …
Material de Apoio
O mencionado episódio do podcast “Livros da Piça”: https://open.spotify.com/episode/27mIT8KoNQddXGFRbb8YDN
Podcast “Betamax”, de Tiago Laranjo e António Araújo: https://open.spotify.com/show/16FPxlfAMm7S4hyyS8FY38
Podcast de guiões nunca feitos “Na Gaveta”: https://open.spotify.com/show/101p4HSbTgwxbSBp0M3ozs
Episódio de VHS, com a participação de Tiago Laranjo, sobre John Frankenheimer: https://open.spotify.com/episode/6k5DMh9b3eUT5BXDySmKPr
Crítica de Roger Ebert a “Transformers: Revenge of the Fallen” de Michael Bay: https://www.rogerebert.com/reviews/transformers-revenge-of-the-fallen-2009
“Polígrafo”
Tiago Laranjo menciona um filme de título “Deadly Cop”, mas o verdadeiro título é “Deadly Hero” (Ivan Nagy, 1975)
Gillo Pontecorvo teve de facto participação em “The Stupids” de John Landis.
Falso! A história de o Fantasporto ter premiado Alan Smithee numa das suas edições é um mito urbano. Contudo, “Hellraiser: Bloodline” encontrou-se a concurso, tendo sido assinado por Alan Smithee, na realidade realizado por Rick Yagher.
Correcto! O workshop de Werner Herzog nos Açores tem a inscrição de 8800 euros.
Um jantar (mais um!? Tradição neste programa? Talvez… não sei, andiamo). Um jantar de resistentes, após o vislumbre do “novo” filme de John Ford na Cinemateca — “The Scarlet Drop” — achado mudo que contraria a extinção declarada destas metragens. História a ser feita, recontada ou apenas contemplada. Sim, aqueles exteriores remetem-nos sobretudo ao teor fordiano que remexemos e embutimos nos nossos textos. Os resistentes são, porém, outros, os bloggers, essa raça maldita, hoje em iminente extinção como os filmes desaparecidos, e, de igual modo, de vez em quando surgem, dão sinais de vida, prometem manifestar-se perante a História, ou, neste caso, na forma de ver e partilhar cinema. José Carlos Maltez é o último dos moicanos, e os treze anos do seu projecto, “A Janela Encantada”, são prova viva dessa teimosia de existir num meio cada vez mais acelerado, imediato e efémero. Entre garfadas e tragos amargos de cevada, eis uma conversa (perdoem a minha voz constipada) de um tempo que não regressa … para o bem e para o mal.
Material de Apoio
Comemoração 13 Anos de “A Janela Encantada”: https://ajanelaencantada.wordpress.com/category/hoje-escrevo-eu/
Ciclo Alfred Hitchcock na “A Janela Encantada”: https://ajanelaencantada.wordpress.com/category/alfred-hitchcock/
Para adquirir o livro “O Cinema Expressionista Alemão” de José Carlos Maltez: https://ajanelaencantada.wordpress.com/2025/11/13/livro-o-cinema-expressionista-alemao/
Somos gerações deprimidas, melancólicas, saudosas de tempos que nunca chegámos a viver. E então, o que fazer com esse desalento acumulado e reprimido? O que exigir dela? O que reclamar? Não há respostas para estes encontros tristes, mas existem encontros que, apesar de tudo, não são em nada tristes. Um deles aconteceu com Carolina Serranito, co-fundadora e programadora do Festival Triste para Sempre, uma mostra de filmes longe do circuito “tear-jerker” ou miserabilista, obras que reflectem a nossa natureza cinzenta, por vezes derrotista, por vezes impotente. Falámos dessa tristeza como ponto de partida e viajámos longe: da animação à gaivota como prato principal, de documentários sobre avós a 'almodramas', e tudo cronometrado para um filme perdido de John Ford na Cinemateca, essa curiosidade cinéfila que desfaz qualquer discurso derrotista que tenhamos tecido até então: porque até aquilo que se perde, encontra-se.
Material de Apoio
Submissões (até 31 de dezembro), questões, outras informações da 6ª edição Festival Triste para Sempre: tristetristeparasempre@gmail.com
Episódio-piloto de “Verdade seja Dita” da ETIC: https://www.youtube.com/watch?v=BpsZRbSbhM4
Livro “A Existência da Vida” da escritora finlandesa Iida Turpeinen (Livros do Brasil): https://www.wook.pt/livro/a-existencia-da-vida-iida-turpeinen/31914083
Convite feito. Convite aceite. O crítico e programador da Cinemateca, Luís Miguel Oliveira, prepara a sua “Santa Trindade” como oferenda de uma paz cinéfila, e, ao mesmo tempo, sem harmonias nem consensos. Do meu lado, o cinema obsessivo a dar lugar ao cinema paranoico como resposta, dos autores à, realça o convidado, política dos autores (riscar autores se faz favor). Foi assim, naquela tarde rendida ao tempo chuvoso, no Bar 39 Degraus: um pé na boémia, o outro na Cinemateca. “Deveres chamam”, havia alertado Luís. O tempo era curto, mas não interessa, a conversa teria de nascer a qualquer custo. Não foi um combate de boxe, nem algo que valha. Foi, antes, um brinde com copos de imperial — “À decadência!” — porque, neste plano devastado, ou melhor, nas belíssimas ruínas que contemplamos, a cinefilia, a tal anomalia num mundo que nada presta à sua gerência, deve ser debatida, discutida e, muitas vezes, contestada. Contra a consensualidade. Contra o seriado dominante do quotidiano.
Material de Apoio
“Por Entre Belíssimas Ruínas”, de Luís Miguel Oliveira, no Cinematograficamente Falando …: https://cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt/por-entre-belissimas-ruinas-2316064
“Crítica e Consenso”, da autoria de Filipe Furtado, no À Pala de Walsh: https://apaladewalsh.com/2025/10/critica-e-consenso/
Após um dia de trabalho, Samuel Andrade sai da cabine de projecção da Cinemateca com um único objectivo: jantar. Porém, alguém estava no seu caminho. O encontro gerou outro encontro.“Aonde vamos jantar?” “Aqui, mesmo ao lado; nem é preciso andar muito e ainda ficamos no convívio dos fantasmas da Cinemateca.” Abancamos no fundo da cervejaria, na esperança do mais discreto e sossegado possível. Fomos, contudo, traídos pela compostura daquela noite quente. Depois de solicitarmos o menu, o nosso redor começou a encher-se: cacofonia, tilintar de loiça, brindes avulsos na celebração dos mais diversos tratos. Do nosso canto, o Cinema era parte do cardápio. Samuel havia escrito recentemente um Manifesto pela Salvação da Sala de Cinema, e foi a partir dele que agendamos uma pequena luta armada. Paul Thomas Anderson e o seu “One Battle After Another” serviram de pólvora para o embate. “O streaming não tem piada nenhuma!” Chegámos a um acordo mútuo, entre cavalheiros, cada um com o seu prato, opinando entre garfadas sobre o cinema que relembramos enquanto Cinema: o da sala, e, nos mínimos dos mínimos, o do home video, para destilar os desertores. Cheers.
Ler Manifesto aqui: https://filmspot.pt/artigo/manifesto-pela-salvacao-da-sala-de-cinema-14859/
Escrever crítica de cinema é um ato solitário e nem sempre o mais pacífico. São guerras interiores, ideias em combustão, a incessante procura por um espaço “silencioso”, longe dos ruídos e da vida urbana, que, ao contrariar a corrente, libertam a inspiração de que necessitamos… ou assim acreditamos. Foi numa dessas tardes solarengas, com vista para a serra da Arrábida, do outro lado da margem do estuário (engajando o episódio inaugural), que a crítica de cinema Susana Bessa se juntou para uma conversa sobre lutas quotidianas, emoções impressas em textos e representações positivas, como também sobre o inevitável ‘entrar’ na arena sob violência intrinsecamente cultural e o sacrilégio desse ritualizado encontro entre homem e animal. Filme, esse, que no seio desta pequena sociedade chamada “cinefilia à portuguesa”, acabou por gerar um debate politizado e até ético. Alguns lamentos acerca da nossa contemporaneidade emergiram, até porque não se combinou ser rigoroso nem seguir fórmulas (aqui não se fala de cartaz). Nelas revelámos o desgaste e, sobretudo, Vida. Porque escrever crítica é aproximar da nossa Humanidade.
Queixamo-nos da falta de criatividade nos estúdios americanos, mas deixamo-nos embriagar por uma ideia de tempo distante, desses que apenas vivem na memória, como prova de uma existência alternativa. António Araújo, figura central do "podcasting" luso-cinematográfico e coautor do livro "Olhar o Medo", viagem ao cinema de terror em português de Portugal, aceitou, numa noite adentro, abordar este flagelo, porta aberta a outras necrofilias, desapropriações, princesas intergalácticas e crianças armadas. Do elevated horror constatamos a ausência: uma batalha sucedendo-se a outra — emotiva, política, cinematográfica — longe das fortalezas pueris do "cinema confortável". A nostalgia matou o cinema político? Acreditamos que sim. Mas quem somos nós para confirmar ciência exacta?
“Não há revolução sem violência”. Recordo estas palavras ao sair do novo filme de Paul Thomas Anderson (“One Battle After Another”) e ao tentar encaixá-lo no mundo que nos cerca cada vez mais. Contudo, escolhi outra forma de resistência: a de um podcast sobre crítica, cinema, cinefilia e latências (ou até lactâncias, se preferirem). Não quis formatos rigidamente definidos, nem estúdios com auscultadores para soar profissional. Quis, sim, uma vista para o Tejo (e a Serra da Arrábida a acenar no horizonte), uma ‘litrosa’ como companhia e um parceiro no crime: o primeiro desta jornada, já tão habituado (ou calejado) nestas andanças do ‘podcasting’. Rui Alves de Sousa, radialista da Antena 1 e editor/colaborador da “À pala de Walsh”, aceitou o desafio. E permitiu, assim, esta resistência: a de fazer um podcast sob a ordem da palavra, do diálogo, por vezes labiríntico; das queixas e lamentos de uma geração perdida e de uma cinefilia pelo mesmo caminho. Sem guiões, sem planos, partimos para a tertúlia. Ao contrário do filme do PTA, sem violências, porque não é a revolução que procuramos, deixaremos isso para outras estâncias, ou estações.